Ele era um menino muito querido
pela família desde o nascimento. Sua mãe era dócil, nobre e gentil. Seu pai,
super atencioso. Nunca lhe faltou nada:amor, carinho e inclusive, brinquedos.
Os meninos por si só, adoram brinquedos.
Mas ele tinha uma fixação maior por todos eles. Rafael via a vida como uma brincadeira e esse
pensamento perdurou em várias fases de sua vida.
Na infância Rafael cismou com
carrinhos de controle remoto e vídeo-games. O seu primeiro exemplar foi dado
pelo vovô James. Ele só queria saber de ‘’vrumm
vruumm’’ e ‘’bibibibibi’’. Formava
pistas na sala de estar que chegavam até a cozinha. Vira e mexe a sua mãe
pisava em alguns deles pelo caminho. Em
relação ao vídeo-game, ele tinha a coleção de vários jogos de Nintendo. Era sua
paixão de todas as tardes depois da escola.
– Rafa, já são dez horas. Vai
dormir que amanhã você tem aula cedo, menino! – dizia a mãe todas as noites.
– Tá bom mãe ... – respondia o
menino, que só desligava os jogos depois de 30 minutos, que era a hora que a
mãe estaria prestes a tomar uma atitude mais rígida.
Na adolescência sua paixão era motos. Ganhou uma coleção inteira de seu pai, que até hoje fica no quarto
guardada como uma velha lembrança. E depois dali não quis saber mais de nada.
Era isso que ele passou amar. Motos.
Ele cresceu. Mudou. Ele quis
brinquedos maiores. Não quis saber mais de joguinhos e nem de brincar de carro.
Seus novos brinquedos eram o celular e a internet. Aos dezoitos anos, recebeu
um dos melhores brinquedos de sua vida.
– Use isso com responsabilidade.
Nem tudo na vida deve ser levado como uma brincadeira. – disse o pai, entregando as chaves da moto
que Rafael estava acabando de ganhar.
Depois disso, ele só queria
farrear. Com a sua moto, ele ia para as baladas, fazia novos amigos e se sentia
realmente livre, jovem, feliz. Depois de cinco meses sofreu um acidente. Quebrou apenas o braço direito. Ser responsável nunca foi o seu forte. Como
ainda morava na casa dos pais, ficou sem a moto durante um mês como um ‘’castigo’’.
Resolveu caminhar no parque na semana seguinte. E foi ali que nos conhecemos.
Ele tinha um sorriso alegre.
Dizia sobre os novos modelos de motos que saiam. Eu fingia entender tudo, mas
na verdade, eu estava prestando atenção no seu incrível semblante. Era tão
lindo, moreno, jovem, divertido e engraçado. Trocamos o número. Eu estava me
sentindo uma idiota por passar meu número de celular a um desconhecido. No outro dia ele
me adicionou no facebook. Minha amigas chamavam ele de ''mauricinho'' mas eu não ligava. Foi esse jeito dele que me atraiu. Depois de um mês, já estávamos namorando.
Minha família não aprovou muito
no começo. Meu pai, que é separado da minha mãe e mora com a minha avó materna
nem quis conhecê-lo. Mas eu estava incrivelmente apaixonada por ele. Ele era
tão diferente de todos os outros caras. Quando ele enfim pegou a sua moto de volta, passeávamos
por vários lugares lindos do estado. Ano novo, feriados prolongados, Natal, Carnaval...tudo era lindo ao
lado dele. Em cima daquela moto, com o capacete rosa que ele comprou especialmente pra mim e abraçada na cintura dele, eu tinha a sensação de poder ir pra qualquer lugar do mundo, porque ao lado dele, a felicidade já era garantida.
Depois de um ano, já estávamos noivos.Tudo estava perfeito.
Então Rafael mudou seu brinquedo
favorito. Arrumou um emprego. Conseguiu comprar o seu primeiro carro. Tínhamos nossas crises de vez em quando. Três meses depois de estarmos noivos,
brigamos mais uma vez por um motivo idiota. Não dei tanta importância assim. Rafael saiu da minha casa decidido
a não voltar mais. Eu pensei que fosse apenas mais uma vírgula de tantas que
ocorreram em nosso relacionamento. Mas para ele era o ponto final. E um pouco
mais que isso.
Deixei recados no facebook.
Mandei mensagens no celular, whatsapp e DM’s no twitter. Depois de uma semana
ele me excluiu de todas as redes sociais. Ele não queria nenhum tipo de
contato. Disse que ‘’queria viver a vida dele’’ e isso já não me incluía.
Já se passou duas semanas desde a última vez que nos falamos. Falando nisso, ontem recebi
uma ligação da nova namorada dele, pedindo para que eu parasse de tentar alguma
coisa, pois ele estava feliz com ela. Fiquei péssima. Chorei a noite toda. Não
consigo comer e nem sair de casa. Pra quê tanta humilhação?
Acordei hoje de manhã de mal jeito no sofá da sala. Depois de uma ducha, joguei nossas fotos fora. Sabe, eu percebi que ele tinha
acabado de mudar de brinquedo favorito. Foi assim antes e provavelmente não seria diferente agora. Ele
descartou o meu coração apaixonado, antes seu brinquedo favorito e agora, uma
coisa qualquer, que não tem mais nenhuma serventia. ‘’ Nem tudo na nossa vida deve
ser levado na brincadeira’’. Ele nunca conheceu limites. Sempre foi assim durante
toda a vida dele. Não doía em ninguém. Mas dessa vez, doeu. E ainda dói. Aqui e agora...em mim.
Eu queria escrever um texto com esse título faz tempo. Ás vezes crio os títulos antes mesmo de escrever meus textos. Odeio falar sobre decepções amorosas...mas tenho escutado tanta coisa por aí que tenho que transformar em material literário (como meus amigos costumam dizer) para aliviar um pouco o coração. Coloquei a foto do Andy de Toy Story, pois a além do filme falar sobre brinquedos, mostrar o terror de alguns deles por não suportarem ser um brinquedo descartado. Achei que combinava com a história. Um beijo pra você que anda lendo o blog essa semana sem reclamar dos textos , é que eu tô inspirada na escrita. Comenta se quiser, vai ser bom eu saber o que você achou! :*