Um dedo de prosa

13:17


A chuva fina se encantou com a noite. As chuvas fortes causaram destroços. Amanheceu e o telejornal anuncia mortes. Amanheceu e eu fiquei aqui, contemplando a manhã nublada e úmida desta pacata e silenciosa segunda-feira. A luz acabou de acabar, desligando o televisor e minha conexão com a internet. Aí eu vim escrever.

Meus ouvidos doem, acho que estou resfriada. Perdi um pouco da voz com uma inflamação na garganta que há muito tempo eu não sentia. Já contei que fico doente uma vez em dois anos? Acho que tenho uma boa imunidade. Meu organismo é incrivelmente forte , acredito. Faz tempo que eu não sei o que é ter uma febre. E não quero saber nem tão cedo, já me basta este incômodo que a variação climática está me causando.

Nunca entendi muito bem porque as doenças nunca me escolhem como vítima. Tanta gente por aí fica mal, ‘’de cama’’ e eu, só fico de cama durante as noites mal dormidas, se é que ainda me atrevo a deitar numa cama. Jogo-me num sofá, num colchão mesmo. E minhas frustrações ficam ali, espalhadas por onde repouso. E só me atrevo acordar quando não me resta nenhuma fagulha de sonho, de sono ou de reflexão.

Ao contrário dessa imunidade inexplicável, existe um coração frágil. Metade de mim é organismo e a outra metade emoção. Nossa...o ser humano é um ser tão complicado. Temos que entender nossos maus espirituais, emotivos, físicos, cognitivos...mas mesmo assim, prefiro ignorar tudo e só dar atenção à minha emoção, porque afinal, grande parte do que sou e do escrevo advém dela.

Agora a chuva engrossou, e a cada minuto ela fica mais forte. Algo me diz pra ir lá fora e contemplar a chuva, mas eu quero ficar aqui deitada na cama escrevendo. Minha escrita é que nem esses pingos de chuva lá fora, ás vezes fina, pouca e suave. Por vezes, grossa, e cheia de emoção e mistérios.

Mas ainda, prefiro a emoção. Os sentimentos. As particularidades. Tudo que eu não posso ver e tocar, mas posso sentir. Eu gosto de um desafio. De poder imaginar, ter essa liberdade de me surpreender comigo mesma. Porque as coisas mais complexas dessa vida, eu resolvi escrevendo e quero que continue assim até o fim dos meus dias. E olha, este texto é mais ‘’um dedo de prosa’’ do que algo realmente significativo. Mas é um texto e sei que se não fosse o mistério oculto do que sinto aqui dentro, eu não conseguiria chegar nem no primeiro parágrafo.

A escrita por muitas vezes me trouxe respostas. E diferentemente do meu organismo, o meu coração continua sem imunidade. E eu até prefiro que seja assim. Porque essa falta de proteção me permite a chegar a experiências imprevisíveis e inimagináveis. Permite-me ‘’ser’’ e, sobretudo, ser escrita.

Escrever. 

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3 Comente!

  1. Como sempre arranzando néa, grande escritora?!
    Ótimo, profundo e sincero.
    Essa parte: "Agora a chuva engrossou, e a cada minuto ela fica mais forte. Algo me diz pra ir lá fora e contemplar a chuva, mas eu quero ficar aqui deitada na cama escrevendo. Minha escrita é que nem esses pingos de chuva lá fora, ás vezes fina, pouca e suave. Por vezes, grossa, e cheia de emoção e mistérios." Tá perfeita, não mudaria nenhuma palavra... *.*
    Linda, vc e seus textos. Congratulações...!

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  2. Sabrina Gomes. Sinto-me obrigado a decorar muito bem essas palavras,para futuramente procurá-las nas pratilheiras dos mais vendidos das minhas livrarias preferidas. Não me venha dizendo que estou sendo delicadamente exagerado, porque não estou. Simplesmente merece divulgação. Seus textos são ótimos, instigante. Me apaixonei por este. A escrita á para mim algo, assim, sublime e importante, como se fosse um das minhas contáveis veias arteriais. Sem ela, não vivo.

    ACESSO PERMITIDO. <3
    Retribui?

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  3. Nossa, adorei como você comparou sua escrita com a chuva. Muito bom!
    Estou batendo meu recorde de tempo sem ficar doente: 6 meses! \o Viva.

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