As memórias de Chucrute

09:15


Gosto de falar colegial ao invés de ensino médio, mesmo sem saber se essa colocação é correta. Onde entramos achando que somos adultos e saímos sabendo que nunca deixaremos de ser crianças.O colegial me remete aos filmes americanos de ''high school'' que retratam quase exatamente tudo que vivemos nesse período tão inesquecível das nossas vidas, só que de uma forma bem mais legal , com armários individuais nos corredores e com menos xerox pra tirar.  Sinto saudade daquele período das festas de quinze anos nos finais de semana e das fofocas no meio do dia, sobre estágios ou pessoas que só faziam besteira. Ah, e da biblioteca, onde tinha os sofás verdes mais confortáveis do que os da nossa própria casa. Tá, não é só isso. 

Tenho saudade de acordar ás 6:00 horas da manhã me preocupando com a aula de psicologia na segunda feira. De subir a rampa e fingir que não vi alguém com quem eu gostaria de ter falado. De pensar duas vezes antes de não estudar para aquela prova que eu sabia que era muito fácil. De cometer a leviandade de furar a fila do refeitório. De beber coca-cola normal porque não tinha a zero e todo mundo ficar me zoando por isso. De dormir depois de um intervalo agitado. De olhar pela janela desejando que o tempo passasse mais rápido.

Não posso me esquecer da Chucrute, meu apelido na época que eu pensei que nunca revelaria aqui. Era assim que me chamavam, acredita? Esse apelido besta foi a minha melhor amiga que pôs na oitava série e continuou até os anos posteriores. Ela disse que o nome era engraçado e eu tinha cara-de-chucrute. No ensino médio, sempre vinha acompanhado de uma piadinha. ‘’ Chucru’’ ‘’Chucreti’’ ‘’Chucrutinha’’ . Eu reclamava, mas no fundo, eu gostava. Tive que admitir, pelo menos agora neste texto nostálgico. 

Falando nisso, sinto falta das minhas amigas. Era quem me entendia e queria ver o meu bem. Às vezes é bom saber que tem pessoas que brigam por você e que sentem dor porque você sente. Você se sente importante e especial, de alguma forma. Era assim que eu me sentia algumas vezes com elas. Afinal, amizade é isso né? Viver inseguro pelas palavras, mas ter a segurança necessária de algumas ações. 

Sinto falta até de me decepcionar. De olhar para pessoas que me odiavam por dentro e pensar como eu deixei aquilo acontecer, sem poder evitar. De ter que responder com ironias provocações infantis. Vai, todo mundo já passou por isso alguma vez na vida. O meu problema é que eu não me intimido. Mato na raiva pra não dá o braço a torcer. Nem mostro que tenho medo, porque dessas coisas, eu não tenho mesmo. Aliás, meus medos são tão subjetivos e óbvios, que nem perco meu tempo.

Depois de enfrentar os trabalhos mais difíceis me senti mais forte para ingressar nos estudos superiores. Sinto saudade de querer usar mil e um recursos para articular minhas ideias. Videos, slides e até dramatizações. Aquilo era um desafio, que por vezes, eu levava mais a serio do que a maioria. Arquei com as consequências, boas e ruins. Professores aplaudiam. Alguns, não compreendiam, mas esses eram poucos. Alguns colegas repudiavam, desdenhavam. Já outros, admiravam. Apesar dos apesares, me sinto com o dever cumprido. 

Precisei até tentar entrar numa disputa para ser oradora na formatura, para descobrir quem eram os meus amigos de verdade. Eu tinha uma ideia mirabolante de concluir uma etapa do mesmo jeito que terminei a primeira, onde fui oradora na classe de alfabetização, escolhida especialmente pela professora (minha mãe me diz que eu fui escolhida porque lia melhor do que todo mundo, mas tenho dúvidas disso. Você sabe né. Pras mães, os filhos são sempre os melhores em tudo). Eu queria forçar um dejavú, mas isso era arriscado demais. Eu não precisava.

Eu não ganhei a disputa e isso foi a melhor coisa que aconteceu naquele último ano. Ás vezes a gente tem que passar por algo muito ruim, para ver quem tá do nosso lado e gosta da gente mesmo, sem os clichês e as outras coisas. E ver quem a gente tem que excluir da nossa vida e ignorar de uma vez por todas. Pena que já era tarde demais. Isso me faz rir agora, mas não me arrependo de ter errado nessa escolha, de forma alguma. Prefiro uma verdade dolorida a mentiras disfarçadas. E o passado e as pessoas que fiquem pra trás. Aliás, desejo para todas felicidade e sucesso.

Descobri que atrás de professores poderiam existir ótimos amigos, que torcem realmente pela gente. Mas apesar disso, ainda sinto falta de conversar com aquele meu melhor amigo politicamente incorreto que as pessoas insistiam em pensar que tínhamos algo a mais. De rir daquela amiga sensível e ao mesmo tempo engraçada que sempre sofria por amor. De escutar conselhos de uma outra, que era boba e ao mesmo tempo sábia. Sinto saudade de dormir no ombro fofo da minha melhor amiga que adorava tirar um sarro da minha cara. Sinto saudade de sentar na mesa da biblioteca, abrir livros e revistas, fotografar frases de escritores e sonhar em um dia ser como eles. Saudade do que não volta mais, do pôr-do-sol visto da janela no meio das aula de português, toda quarta-feira, antes das seis.

Sinto saudade mas não quero que volte. Memórias, por favor, isso não se discute. Ainda sou aquela normalista sonhadora que sentava na primeira cadeira daquela fila do canto, que usava batom vermelho e se maquiava dentro de sala. Ainda sou aquela jovem vivia escrevendo o endereço do próprio blog no quadro mesmo que todo mundo achasse isso ridículo. Ainda sou aquela que quer usar um óculos de grau mesmo tendo a vista perfeita. Ainda sou aquela que sempre pegava livros na biblioteca que nunca iria ler, que só pensava no vestibular e tinha medo do que iria viver no dia seguinte. Ainda sou aquela, nem tão tímida, nem tão extrovertida. Virtudes. Alguns vícios e defeitos, me desculpe. 

Ainda sou Chucrute.


You Might Also Like

6 Comente!

  1. Chorei amiga! Mas inda te chamamos de chucrute! Lindo lindo esse texto!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Só de você ter lido já valeu a pena ter escrito <3

      Excluir
  2. Ler esse texto e não lembrar dos maravilhosos momentos ao lado das Quarto amigas, é impossível. Sei que esse tempo não volta mais, mas tudo vivido foi guardado com toda intensidade em nossos corações, e hoje eu digo: Belíssimo texto, sábias palavras para descrever grandes momentos ..
    E saiba, que eu vou ser sempre a amiga LEOA que briga pra te defender, que faz palhaçada pra te fazer sorrir e que também chora quando te ver chorar ! Amo você s2
    E sei que essa parte foi pra mim " s. De rir daquela amiga sensível e ao mesmo tempo engraçada que sempre sofria por amor. De escutar conselhos de uma outra, que era boba e ao mesmo tempo sábia."

    ResponderExcluir
  3. Ler esse texto e não lembrar dos maravilhosos momentos ao lado das Quarto amigas, é impossível. Sei que esse tempo não volta mais, mas tudo vivido foi guardado com toda intensidade em nossos corações, e hoje eu digo: Belíssimo texto, sábias palavras para descrever grandes momentos ..
    E saiba, que eu vou ser sempre a amiga LEOA que briga pra te defender, que faz palhaçada pra te fazer sorrir e que também chora quando te ver chorar ! Amo você s2
    E sei que essa parte foi pra mim " s. De rir daquela amiga sensível e ao mesmo tempo engraçada que sempre sofria por amor. De escutar conselhos de uma outra, que era boba e ao mesmo tempo sábia."

    ResponderExcluir
  4. Que lindo texto Sabrina :)
    Agora, que eu vejo, sinto mesmo saudade da época do colegial. A gente sempre reza pra sair daquele lugar, mas sempre esquece das pequenas coisas que nos fazem gostar de lá.
    Penso em voltar lá para ver como o pessoal está -e pegar meu histórico e diploma que deve estar mofando em algum armário XD
    Ver como anda tudo -que aliás fiquei sabendo que não anda nada bem em quesito de liberdade de expressão :(
    Rever amigos e professores...
    Obrigado, Sabrina. Ler seu texto só aumentou a vontade de me fazer voltar lá para dar um oi :)
    Eduardo, Platina JP

    ResponderExcluir
  5. Ótimo texto mesmo! Cheio de lembranças, de detalhes que podem passar despercebidos por muitos, mas são coisas que fazem a vida valer tanto a pena. E confesso que, por muitas vezes, me pego sentindo saudade dos tempos de Ensino Médio. Ah, que nostalgia! :D

    ResponderExcluir

Olá, seja bem vindo :) Diga sua opinião e ela será lida e muito bem vinda, ela é essencial para a construção da identidade deste blog!

Sua opinião será respondida aqui mesmo e em seu blog, por isso peço que deixe seu link para que eu possa retribuir a visita.

Temos twitter: @sabrinabyme e @blogspiderwebs; siga para receber todas as atualizações.

Um recado

Estava esperando por você. Antes de continuar, você precisa saber de algumas coisinhas, ó: isso não é um diário, nem um blog de moda. É apenas um blog. E apesar de alguns textos desde site possuírem um caráter bem pessoal [ao enfatizar sentimentos e circunstâncias] e narrativas por inúmeras vezes cortantes e sensíveis em primeira pessoa, nem todos eles possuem caráter auto-biográfico e opiniões da própria autora.

SPIDERTV

PEQUENAS DOSES DE @SABRINABYME

'' Eu quis encontrar um jeito de nunca morrer, e a partir daí, eu comecei a escrever.''

'' Se tem uma coisa que eu aprendi sobre a dor, é que na maioria das vezes, ela também é a cura''

'' Que eu nunca perca essa vontade de escrever. Jamais. O mundo parece uma prisão, às vezes. Escrever é como abrir janelas.''


leia mais em Pensador.info>