Milk shaque e fritas

06:29



Passavam-se os dias, palavras e ligações. Você queria me ver novamente, depois de anos sem me encontrar. Você sabe, sempre foi o meu melhor amigo, mas para mim, sempre foi um pouco mais do que isso antes , agora e sempre. Eu não sabia ao certo se queria te encontrar.  Mas de tanto você insistir achei que deveria tentar, porque não? Meu coração estava quebrado e você era como uma super-cola que possivelmente viria restaurar. Essa foi uma bela hora para você chegar na minha vida, outra vez.  Eu odiava seu humor e sua maneira galante e forçada de lidar com as situações nas nossas trocas de emails nos últimos três meses, mas depois de anos sem te ver e na altura dos acontecimentos , eu acho que já era hora de tornar aquilo real. Ficar cara a cara. Aceitei a sentença.

Você sinceramente me confundia. Por mais que sua sinceridade transparecesse , por vezes, eu me achava uma boba ao acreditar em suas conversas escritas. Todos os dias eu queria falar com você, mas esperava você começar, o que te tornava assim, um amigo diferente. Os dias passaram tão rápido, que nem notei. Quando menos esperei, já tinha chegado o dia em que você escolheu de marcarmos de nos encontrar. Era pela noite , em um shopping, no centro da cidade, em meio aos prédios e arranha-céus. No meio de um centro capitalista, talvez um lugar bastante peculiar.

Cheguei nervosa e em êxtase. Vestia uma saia de rendas e uma blusa regata, sem esmalte nas unhas e uma sapatilha bem confortável nos pés, para não correr o risco de tropeçar.  Subi as escadas rolantes, sentei no primeiro banco que avistei e esperei você chegar. Pra falar a verdade, eu te vi logo que cheguei, mas não queria te abordar, enganei a mim mesma fingindo que não te vi.  Fui covarde.  Você estava conversando com um amigo, e parecia me esperar, ansioso e sorridente. Fiquei por minutos contemplando aquela cena e vendo como você evoluiu e mudou, reparando sua vestimenta e seu corte de cabelo. Sentei, peguei o celular, olhei vagamente para o nada.

Eu fingia não me importar com o encontro, mas era inevitável enganar meu coração que acelerava na ânsia de te encontrar. Minhas mãos tremiam e em questão de segundos você chegou com um belo sorriso por trás e veio me abraçar. Seus olhos brilhavam como as estrelas do céu naquela noite preta-azulada. Caminhamos até o lugar mais próximo, eu não queria escolher, preferi te acompanhar.

A praça de alimentação pouco me enchia os olhos. Fazia tempo que eu não via o seu sorriso, e para mim, era o que mais se destacava naquele lugar. Suas piadinhas me irritavam e percebi que seus assuntos eram vagos e sempre em tom sarcástico. Grande idiota você. Me senti incomodada por inúmeras vezes sem saber se o que falava era verdade ou mentira.  Seus joguinhos e brincadeiras infantis, me deixavam mais insegura do que nunca. Depois de tanto te esperar eu estava ali, calada e preocupada em causar uma boa impressão. Eu só queria não desperdiçar a chance, mas já era tarde.

Você pediu Milk shaque e fritas. Pra dois. Você queria comer alguma coisa e eu  queria conversar . Eu falei pra você não pedir, mas não adiantou.  Sua firmeza era maior do que a minha resistência.  Então eu não liguei, sua presença  de alguma forma me fazia mais bem do que mal naquele momento. E assim, nossas brincadeiras rolaram até você me fazer engordar.  O meu sabor escolhido foi Romeu e Julieta e o seu, chocolate. E foi esse o sabor do nosso encontro. Um sabor de goiabada com queijo com o acentuado gosto de chocolate amargo, era o desejo e silêncio por trás dos olhares trocados. O seu olhar era mistério e o meu era covarde. 

Eu te via como um refúgio, e você me via apenas como uma boa e velha amiga. Ao voltar para casa parecia que o abismo que nos separava anos a fio, hoje estava maior e mais profundo. Você me levou até a porta de casa, e depois sumiu, não ligou. Desapareceu. Meu coração não estava mais quebrado, mas de alguma forma, eu ainda sinto a sua falta,mesmo que isso não vá me restaurar. E todas as vezes que eu passar por aquele shopping, naquele lugar, eu vou me lembrar de você. 

O que você queria? Você ficou anos sem estar inserido em meu cotidiano e em poucos meses, morou em meus pensamentos noite e dia até que as nossas mãos se tocaram outra vez. Agora, a dor de sua ausência sem motivo é o que me perturba diariamente. A caixa de entrada está vazia, e eu confiro meus emails, todos os dias. Eu queria ter a fórmula para nossa equação, mas acho que nem o maior matemático do mundo conseguiria desvendar essa incógnita. Só me resta ficar aqui tentando entender o incompreensível embora seja difícil não pensar em você. Mas eu te entendo. Afinal,  você me fez feliz e me fez sorrir. Me fez sonhar novamente. Me mostrou que era real. 

Mesmo que tenha sido só por um único dia. 


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3 Comente!

  1. [Aplausos de pé]...
    Congratulações, você escreveu uma crônica com personagens. Sendo real ou não, são personagens. Que por sinal ficou muito boa...
    Muito obrigado pelo deleite que me proporcionou, um saboroso texto com "... sabor de goiabada com queijo com o acentuado gosto de chocolate amargo...".
    Muito bom mesmo, gostei, foi simples, singelo e delicado. Um toque especial de Sabrina Gomes.
    PARAFRASEANDO(... e é esse toque que faz vc ser vc...!);p
    BJÃo gatona, forte abraço e fique com Deus!

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  2. Bah... parece que foi real.
    Transmitiste realidade com muita destreza.

    www.cchamun.blogspot.com.br
    Histórias, estórias e outras polêmicas

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