Anita: o doce brilho dos olhos verdes

23:45


Dois anos não é pouco tempo. Dois anos são 730 dias, 17.520 horas, 1.051.200 minutos e 63.072.000 segundos. Em dois anos, o destino muda de lugar.

‘’ –  Permissão para sair ? ‘’’’–  Permissão concedida. ‘’ E assim, terminava mais um dia de trabalho do Soldado Ferreira. E dessa vez, era um dia diferente. Depois de ficar bastante tempo servindo ao seu país, Giovanni Paolo Ferreira da Silva, iria voltar finalmente para casa. Conseguiu uma gratificação: foi-lhe concedida uma licença de um mês pelas grandes conquistas e missões fora do país, nas quais se destacou. Na verdade, seria apenas de uma semana, mas o jovem fez por merecer ganhar mais.Mal podia esperar a hora de ver a sua mãe, seus irmãos e ela – a menina dos olhos verdes. Desde que saiu do Maranhão, passou meses na Ásia, África e os últimos meses estava na Europa. Atualmente estava no Rio de Janeiro, local que morou por um mês com seu padrinho antes do alistamento.

Seu nome era italiano assim como a derivação do seu ofício. O termo "soldado" deriva do italiano: "soldato"  – alguém a quem se pagou o "soldo" para servir. Giovanni Paolo tem esse nome porque sua mãe, uma católica fervorosa, tinha um desejo inigualável de ver seu filho se tornar sacerdote, e por isso, lhe pôs esse nome, que em português significa ‘’João Paulo’’, que inclusive era o nome usado por dois papas na história. Ela queria que seu filho tivesse a vida semelhante a estes servos de Deus, mas Giovanni queria ser soldado desde criança. Ele queria ser herói, tinha vontade de lutar pela pátria. Mesmo decepcionando a mãe, ela aceitou o destino que ele escolheu e aos dezoito anos, ele entrou no exército.

Então mais uma manhã cinza chegava. Giovanni foi comprar as passagens, o vôo com destino ao Maranhão era na próxima semana. Ligou para a mãe, perguntou sobre os irmãos e não tirava a doce menina dos olhos verdes da cabeça. Aquela história era a história que ele carregava em seu peito, todos os dias e noites e nunca se esquecia, pois estava gravada no interior de um relicário, que não saía do seu pescoço. O relicário era redondo e de metal. Não era um relicário convencional, com duas fotos, mas sim, com dois dizeres em cada lado: Giovanni e Anita – eternamente.

E a semana correu, assim como o seu coração que a cada segundo ficava mais acelerado. Faltava apenas um dia. Pela noite, arrumando as malas e separando as últimas coisas para seguir viagem, ninguém podia notar que por detrás de um homem sério, alto com o corpo másculo e bem definido, pele morena e cabelos raspados, existia várias histórias e sonhos de um menino perdido e apaixonado.

Giovanni e Anita se conheceram na infância. Ele queria ser soldado e ela queria ser bailarina. O amor dos dois nasceu na festa da escola onde eles estudavam. Ela foi vestida com um tutu azul claro, sapatilhas brancas, um body azul e meia calça . Nos cabelo, tinha um coque castanho bem feito . Na face, um doce brilho no olhar, que já a pertencia. Ele foi com uma fantasia que sua mãe mesmo se encarregou de fazer: colocou uma calça preta e um coturno, juntamente com o paletó vermelho com detalhes em dourado. Não se esqueceu do chapéu.  – era um verdadeiro soldado de chumbo. Era a bailarina e o seu soldado de chumbo. Depois daquela festa, todos os dia ele frequentava casinha de Anita, que era pequena, pois ela morava somente com a sua avó – as duas foram abandonadas pela mãe de Anita, que viajou para a Europa para seguir a vida de atriz e nunca mais voltou. Anita não tinha mais ninguém no mundo. E assim, sem querer, Giovanni entrou aos poucos na vida dela.

A adolescência chegou, e eles começaram o namoro quando Anita tinha quinze anos e Giovanni dezesseis. Como era o costume da época, teve que pedir para a avó de Anita, a permissão. E depois que a velha senhora deu a resposta, eles começara o namoro. O sentimento entre os dois era algo intenso e verdadeiro. Eles costumavam sair para ver as estrelas, pescar pelos rios e nadar pelos lençóis maranhenses. Ele gostava do seu sorriso e do seu olhar. Ela gostava de como ele notava seu estado de espírito. Completava-se, se amavam e idealizavam uma vida a dois.

Então, os anos se passaram e a vida dos dois mudava a todo instante. Anita, que já fazia ballet a bastante tempo, começou a dar aulas num pequeno vilarejo. Giovanni, que já estava com dezessete anos, teria que se mudar para o Rio de Janeiro para realizar o seu maior sonho. Anita não queria impedir ele de seguir, apesar de amá-lo com todas as suas forças, ela jamais interferiria na realização de um sonho. Eles iriam ficar sem contato por exatos dois anos. Então, na última noite que ele ficou no maranhão, ela se fantasiou de bailarina, como na primeira vez que eles se viram, fazendo ele se recordar de sua maior lembrança. E sem pensar mais em nada, eles se entregaram um ao outro, pela última vez. Na manhã seguinte, ao se despedir, Anita ainda entregou o relicário de metal para Giovanni, que se despediu de sua amada com a promessa de que quando voltassem, eles se casariam.

Agora o coração de Giovanni não parava de bater. Já dentro do avião, o piloto anunciava o pouso no Aeroporto Internacional de São Luís. Assim que ele chegou no aeroporto, abraçou seus irmãos e a sua mãe. Entrou no carro sozinho. Correu desesperado em direção ao lugar em que sua amada residia. Viu que muita coisa mudou. O lugar estava mais urbanizado – incrível como as coisas mudam em dois anos – pensou. Não achou a casinha de Anita e sua avó. E o desespero tomou conta de suas veias. Correu até a vizinhança procurando pela amada, entrou em ruas, bares e vielas. Anita não estava em lugar algum.

Foi até a praça da cidade, e lá estava a avó de Anita, quase do mesmo modo que a conheceu. Ela estava no parque, alimentando os pombos. Giovanni olhava para os lados procurando saber de Anita. Mas nada, nenhum sinal dela. Foi quando que de repente, ele chegou perto da velha senhora.

  Dona Dolores!
 Olá, Giovanni! Como demorou! Pensei que ficaríamos sem contato apenas por um ano, mas passou tempo demais! Dois anos né? Que saudade eu estava de você – e os dois se abraçaram.

 A senhora sabe onde está Anita ? – perguntou preocupado. Dona Dolores, ao ouvir a pergunta, teve lágrimas nos olhos e as mãos trêmulas. Silenciou por alguns minutos. 

–  Me responda, por favor! Eu penso nela todos os dias. Eu preciso encontrá-la! Aconteceu alguma coisa?  disse o rapaz, apreensivo. 

- Bom querido...  dona Dolores não sabia como contar  é uma história muito triste. Anita sofria de câncer e descobriu isso dez meses após sua partida. Ela lutou muito, por você e por Eva. Mas ela não teve forças, pois o estado da doença era avançado demais para um tratamento dar certo. Tínhamos poucas condições na época e ela preferiu que ninguém te contasse nada até que você viesse para o Maranhão. Ela não queria estragar seu sonho, nem te preocupar. Mas acredite: ela te amou até o último segundo de vida. 

Nessa hora, o sonho se converteu em pesadelo. O céu azul daquela tarde, de repente, parecia ter se convertido em tempestade.  O mundo começou a não fazer mais sentido. Foi como se uma faca transpassasse o seu coração. Giovanni não queria aceitar aquela verdade. Dos seus olhos saíam lágrimas e ele se lembrava de todos os momentos que eles viveram juntos. Giovani não conseguia pensar em mais nada, apenas naquela bailarina  encantadora, com os seus olhos verdes cor de esmeralda.    Não pode ser... – disse , desnorteado. 

 Cuidado, Eva! – disse dona Dolores, advertindo, para uma menina pequena de olhos verdes e pele morena.

 – Tá, vó!  respondeu a pequena que estava no meio da areia. Giovanni quis se aproximar. Dolores não disse nada, apenas olhou para ele, sorrindo com o olhar. Ele parecia assustado, mas já sabia a resposta. Foi se aproximando aos poucos, notando o quanto a menininha parecia com alguém que ele conhecia. O olhar tinha o mesmo brilho. Ao chegar perto dela, em meio a lagrimas, ele se abaixou. E fez a pergunta que tiraria a mágoa do seu coração.

 Oi pequena, quantos anos você tem? – e representando com os dedos, ela disse em voz baixa – Um.

Ele abraçou a pequena, que não entendia nada. Fazia dois anos que ele viu Anita pela última vez. Nesse meio tempo, surgiu Eva. Suas lágrimas não paravam de cair. Aquela era Eva, a pequena princesa de olhos verdes que viria alegrar sua vida.  Por quem Anita lutou. A sua filha, o seu tesouro. O fruto de um amor eterno. O presente que Anita deixou.

Com duas conchas nas mãos, vem vestida de ouro e poeira.  Falando de um jeito maneira, da lua, da estrela e de um certo mal que agora acompanha teu dia, e pra minha poesia é o ponto final. É o ponto em que recomeço recanto e despeço da magia que balança o mundo.  Bailarina, soldado de chumbo. Bailarina, soldado de chumbo. Beijo e dor...Nossa casinha pequena, parece vazia sem o teu balé, sem teu carinho guardado, soldado de chumbo não fica de pé. (A Bailarina e o Soldado de Chumbo - O Teatro Mágico)


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4 Comente!

  1. Emocionante e sensível até a última letra. *-*

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  2. MORRI DE CHORAR.!
    Congratulações, espero ler mais dessas....

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  3. Poxa, Sabrina, assim não vale... me fazendo chorar a esta hora..
    Seu conto ficou lindo!

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  4. Aff né, CHOREI, claro!
    Parabéns pelo texto, Sabrina <3

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