A colecionadora de lembranças

20:32



Há algum tempo atrás, minha vida não tinha tantas novidades. Sempre quando eu ia dormir na casa das minhas primas, elas com 13 e 14 anos, já tinham uma bagagem de história pra contar e se espelhar, e eu, a mais lerdinha pra essas coisas nunca tinha nada de legal pra dizer. Nunca tinha tido um grande amor, ou uma grande decepção. Nem ao menos sabia o que era de fato ter amigos, colegas ou conhecidos e muito menos sabia separar isso. Era muito tímida, retraída e complexada (por ser gordinha). Minha vida não era muito emocionante.

Aos poucos tudo foi mudando. Emagreci bastante e me apaixonei de verdade, pela primeira vez. Minha vida começou a ter grandes novidades e o mundo se abriu pra mim. Porém, assustada com tudo aquilo, eu ainda caminhava devagar...devagarinho. O tempo passou mais ainda, eu cresci e enfrentei medos. Me decepcionei um monte de vezes, deixei um monte de gente ir embora, porém, aprendi a dar valor as coisas boas que a vida ainda me dava. E tão emocionada com aquilo tudo eu me tornei a colecionadora de lembranças.

Desde que comecei a escrever e a fotografar, comecei a querer registrar todos os momentos que me fazem felizes e compartilhar com aqueles que me seguem. Primeiro era no orkut, depois passou para o blog e o facebook. Se tem uma coisa que minha mãe me ensinou foi a dar valor as pessoas e aos momentos especiais da vida. E eu fazia isso registrando. E ainda faço, por sinal.

Passei a guardar uma lembrança de tudo. Meu instagram é uma caixinha de lembranças virtual. Foi o jeito mais fácil que eu arrumei de guardar tudo aqui que me importa durante o dia. Eu registro numa foto. Eu publico. E depois de algum tempo, eu volto lá pra me recordar daquele momento maravilhoso que vivi. Isso acontece tanto com fotos aleatórias ou com meus selfies.
 
Só que nessa vida, sem perceber, eu descobri algo essencial: nem tudo vem pra ficar. Descobri isso quando eu me vi apagando fotos de momentos em que eu estava simplesmente feliz e alegre, ao lado de pessoas que provocavam meu sorriso e completavam a minha vida. Apagando pra poder deletar qualquer tipo de memória remota que eu poderia vir a ter. Involuntariamente foi aí que eu pensei ''como assim? como é possível isso?'' A colecionadora de lembranças estava entrando numa crise. 

Eu cresci e apesar de ainda querer colecionar lembranças, já estou madura quanto a isso. Aprendi a guardar alguns momentos só pra mim. Tudo bem que as fotografias marcam e guardam momentos, nos fazem recordar e tudo mais. Mas será que eu quero mesmo ter o remorso de olhar fotografias de momentos que jamais irão se repetir? Será que eu quero olhar fotos antigas e sentir tristeza porque aquela alegria passou? Acho que não.

Por isso, desapeguei um pouco dessa necessidade do registro. Acho que a nossa vida é repleta de passagens. Algumas pessoas chegam, fazem uma bagunça, te mostram uma música nova, te fazem adquirir uma mania engraçada, fazem você sorrir,  chorar. Outras fazem você experimentar coisas novas, fazem você olhar por uma nova perspectiva e simplesmente se vão. A vida da gente é assim. As coisas estão mudando o tempo todo e se não fosse esse milagre da renovação, o que seriamos?

Faz parte, faz parte e faz parte. É um clichê dizer isso em quase todos os meus textos. Mas a vida é um eterno clichê. O que muda é a forma como vemos as coisas. E como lidamos com elas. A nossa perspectiva sobre o mundo e sobre nós mesmos. Um dia me perguntei: ''por que o que é bom sempre tem um final?'' e uma amiga me disse: ''para que coisas melhores possam começar''. E olha, ela tinha TODA a razão.

A colecionadora de lembranças, agora, virou a colecionadora de histórias. Coleciona todos os dias sorrisos, olhares e palavras. Guarda para si aqueles momentos únicos e especiais. E esconde tudo isso em um lugar especial onde ninguém poderá retirar. Porque o que ficou no coração, mesmo que tenha sido só por um momento, ninguém consegue mudar. Ninguém. Jamais. 


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3 Comente!

  1. Flor, quando eu era mais nova, também, tinha poucas histórias, bem... pelo menos poucas histórias de amores. Também nunca tive muitos amigos. Sobre "apagar" recordações... recentemente, fiz isso, também... sei lá, mas pensei que nem tudo se mostra ou conta. ;) Amei seu texto, pois me identifiquei um pouco! Você está cada dia melhor! beijinhos

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  2. Ih Sá, eu sou igual a você. Sempre fui a mais nova dos primos e do grupo de amigos no colégio, então estava sempre para trás nas experiências.
    Eu gosto desse tipo de pessoa que gosta de registrar todos os momentos, mas não sou assim. Eu sou mais do tipo que vive aquilo o máximo que pode. Até porque eu sempre conto com os colecionadores de lembranças.
    Bem vinda ao grupo dos colecionadores de histórias! :)
    http://www.doceilusao.com/

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  3. Sabe mais um texto lindo, no qual eu me identifiquei bastante. Bom, no meu caso eu sempre fui bastante tímida, quieta e na minha talvez porque a vida as vezes prega algumas peças quando crianças, situações que nós deixam complexadas. E que com o passar dos anos, vamos aprendendo que as pessoas elas entram nas nossas vidas mas vão embora, que mesmo que as fotos sejam a maior fonte de recordação, é um momento único que amanhã vamos olhar e ver que não irá voltar, que tudo muda, nós mudamos e que as vezes uma limpeza nas fotos é preciso, mas que a vida é isso temos que aprender a conviver com uns e sobreviver sem outros! E também certos momentos devem ser guardados só pra nós! s2

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