Abrindo aspas: casos de liz - terror aquático

20:37



Passou o dia tentando não pensar. Quando não estava com a tevê ligada ouvia música, via vídeos na internet, lia jornal, voltava a ver televisão. Tentou até fazer tudo ao mesmo tempo, apesar de saber que era inevitável não ter um momento pra pensar. A manhã passou e a tarde já começava a se despedir quando ela resolveu ir tomar banho. Tentou lembrar de algo que ainda não havia feito para se auto-sabotar, mas nada veio à sua cabeça. Vencida pelo cansaço de procurar desculpas, separou as peças de roupa que levaria até o banheiro, enquanto aqueles pensamentos malditos tentavam sair da caixa que ela fez questão de trancar. 

Ligou o chuveiro, despiu-se e entrou debaixo d'água. A música que tocou no rádio de manhã e não saía da cabeça resolveu descer pela corrente sanguínea e antes que ela pudesse evitar, ja estava saindo de sua boca. Cantou a primeira estrofe, o refrão e repetia continuadamente o verso que mais doía. 
Inevitavelmente a caixa se abriu. A letra da música se entrelaçou com seus pensamentos e com as lembranças do sonho da noite passada. Num gesto desensofrido girou com rapidez a torneira da água quente, acreditando veemente que a temperatura da água queimaria aqueles devaneios ilusórios. Fechou os olhos, prendeu a respiração e mergulhou seu rosto na água achando que ela lavaria toda a sua alma. Num misto de vapor e água quente, sentiu uma gota fria e salgada se misturar em sua face. 
Voltou a afastar seu rosto da água, respirou fundo, colocou os pensamentos novamente na caixa e prometeu trancá-la. Jurou. Disse para si mesma que nunca mais pensaria nisso, nisto ou naquilo. Naquilo que fazia seu coração bater descontroladamente, que fazia seu corpo liberar adrenalina suficiente para mil mergulhadores desbravadores de mares. Naquilo que parecia fazer questão de tirar sua paz desde que tinha invadido sua vida. Nele.

I'm tripping on words, you got my head spinning
I don't know where to go from here
(You and me - Lifehouse)


Gostaram do texto? Quem escreveu foi a Cat Campos, 18 anos, Rio de Janeiro/RJ. Cat é blogueira e leitora do blog, seus escritos se encontram no Doce Ilusão . Quer aparecer com algum texto aqui também?É só mandar um comentário nessa postagem com as informações seguintes: *Nome: *Nome do Blog: * Link do post:. ou um email (spiderwebsonline@hotmail.com) - com seu nome , idade e cidade/estado. Boa sorte! 

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5 Comente!

  1. Nem sempre a água pode diluir os pensamentos amorosos, e isso dói demais. Lindo texto.
    Beijo xará!

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  2. Dos textos do "Abrindo Aspas", penso que este foi o que eu gostei mais. Ao menos dos que eu recordo de ter lido.
    A hora do banho é um momento, digamos, perigoso para quem está mal. Muitos suicídios acontecem neste momento mais do que propício, onde ninguém está olhando e muito menos desconfiando do que possa estar acontecendo lá dentro. E, a demora, quando é percebida, por vezes, o auxílio já chegou tarde demais.
    Meus muitos parabéns a autora.
    Superação. Esta é a palavra.

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  3. Eu adoro tomar banhos. Gosto dos banhos exatamente por isso. Estou em outro mundo, em meio à água, símbolo da inconstância. Gosto de colocar uma música bem legal e ir pra ducha. Gostei muito do que li.

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  4. As vezes tentamos suprimir algum sentimento mas se ele é tão forte que notamos sua presença ao prende-lo com certeza ele não ficará muito tempo no carcere.
    Abç

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  5. Nossa, adorei!
    E sentimentos, pensamentos, são assim, quando mais se tenta evitá-los, aí é que vêm com força total!
    Muito bom conto.

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'' Eu quis encontrar um jeito de nunca morrer, e a partir daí, eu comecei a escrever.''

'' Se tem uma coisa que eu aprendi sobre a dor, é que na maioria das vezes, ela também é a cura''

'' Que eu nunca perca essa vontade de escrever. Jamais. O mundo parece uma prisão, às vezes. Escrever é como abrir janelas.''


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