1001 corações na Central do Brasil

12:46


E mais uma vez, tudo se repetia na minha mente num eterno flashback de emoções e momentos. Viajante nos meus planos e idealizando coisas, repetia novamente, o ato involuntário de estar sentada em um coletivo inquieta, com a iminente chegada ao destino que me aguardava. Apoiei a cabeça na janela e assim, pude apreciar a paisagem em movimento. Caos e soberania: era tudo que eu avistava nas ruas do centro daquela cidade. Depois de alguns minutos, me peguei olhando e refletindo sobre o aspecto urbano e triste das paredes pichadas de um lugar que não é nada semelhante com a calmaria e serenidade da minha pacata cidade natal.

Sair dois eixos dentro deles, sair da linha e continuar parado nela. Nunca pensei que poderia encontrar outro mundo neste. Estive então, por anos, muito enganada. Desci do ônibus na Central do Brasil, com o coração cheio de esperança por mais um caminho a trilhar. O salto batia no chão, fazendo com que todos notassem a minha passagem pelo caminho. Senti-me tímida por alguns instantes, amedrontada com novos conceitos adquiridos e de certa forma, esperançosa. Ao caminho, vi todos ali, seres humanos iguais, mas diferentes também. O que lhes diferia eram coisas mais concretas, não só a sua personalidade, mas a sua posição social e existencial no mundo. O seu emocional expresso em seus olhares turvos.

Apesar de surpreendida com as injustiças e coincidências presentes ali, ao longe avistei o prédio com um relógio grande bem lá em cima. Estava marcando exatamente 15 hrs e 35 min de uma quinta feira nublada e posteriormente, chuvosa. Não pude errar o caminho, e foi neste momento que me juntei aos mais de 1001 de corações presentes naquele lugar. Eram pessoas de todas as raças, cores, sonhos e amores. De inúmeros interesses e de inúmeras convicções. Uma verdadeira máquina de humanidade. Posso jurar que mesmo que buscasse olhar e focar em outra coisa, só via as pessoas. Eram muitas, várias delas . Estavam todas correndo de um lado para o outro, muito rápido e quase mecanicamente. Pareciam mais robôs. Naquele momento eu só queria apertar o botão de pausar para analisar cada coração agitado, cada mente ansiosa e cada olhar desesperado.

O que será que se passava naqueles corações? Quais seriam as suas angústias? Seus medos? Seus amores? Suas metas? Seus ideais? Essas perguntas e muitas outras se transformavam nas minhas indagações a todo o momento enquanto procurava a segunda condução para chegar ao meu destino final. Ali, pude assim imaginar coisas variadas: talvez algumas daquelas pessoas estavam sonhando em ir para casa e dormir. Outras, em ver sua família, sair com amigos, ir ao shopping, salão de beleza ou ao metrô. Algumas até chegariam para algum compromisso atrasadas e para outras, talvez, seria o último dia aqui no mundo dos vivos. Meus olhos buscavam a serenidade, mas só viam a agilidade e a correria das pessoas. Eu não queria copiar os seus movimentos, mas era inevitável não se adequar nesse ambiente. Corri, ainda que contra a minha vontade.

E foi assim que cheguei, em meio a todos os deslumbres, ao meu destino final, mas com algo diferente nos pensamentos. Acolhendo uma nova perspectiva, um novo olhar sobre as coisas e sobre as pessoas. Um novo olhar sobre o mundo. Sabe, parece estranho enxergar profundidade em coisas superficiais. Mas o mundo que nos cerca, é de fato, uma infinita fonte de conhecimento sobre coisas nas quais, livro nenhum consegue nos passar. A abstração não é o caminho que quero trilhar.  Ser diferente e voar, mas com os pés no chão. Eu não queria ser mais um triste e agitado daqueles mais de 1001 corações na Central do Brasil. Meu coração tinha sede de ver mais, de saber mais e de ser mais humano, apesar de todos os desafios. Sonhar mais, mas concretizar em dobro. Lutar, apesar de todas as injustiças e sobretudo - persistir pela vida . Apesar de todos os clichês. 

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4 Comente!

  1. Concordo, Sa... cada um tem um conhecimento peculiar que livro algum pode compartilhar. E os desafios são os que nos move para a realização de sonhos. Lindo texto... beijos e tudo de bom!

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  2. Lindo o texto, Parabéns Sabrina!

    Beijos
    www.chadatarde.com

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  3. Oi Sá
    Que texto legal. As vezes eu também fico vendo as pessoas e pensando no que elas estão pensando kkkkkkkk.
    Bjão da tia Lu. Fique com Deus!

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