Podia ser você

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Nunca mais é uma palavra muito forte que usamos com muita frequência. Dizemos todos os dias, sem pensar no que seria de fato o ‘’nunca mais’’.  O nunca mais de certa forma é equivalente ao para sempre, que é mais aceitado, esperançoso, promete mais e é menos ignorado. Já pensou não viver nunca mais? Já pensou deixar de existir, para sempre? Aí você me diz que se pensarmos em coisas assim, iremos pirar tentando decifrar o indecifrável. E eu escuto, ignoro e sigo. Por isso ignoramos estes fatos tão próximos e ao mesmo tempo distantes da nossa realidade. E vivemos, somente.

Mas vem cá, e a última vez que você disse eu te amo. Você lembra? Da última vez que você viu o sol, reclamou do calor e do governo. Da última vez que você se olhou no espelho e se achou gorda demais, magro demais, feio demais, bonito demais, diferente demais e não se contentou por pelo menos estar ali, vivo e refletindo. Já pensou na última vez que você foi feliz, que foi triste, que chorou e se decepcionou , abraçou alguém em baixo de uma noite estrelada ou beijou alguém debaixo da chuva? Já se recordou dos momentos mais difíceis e dos melhores momentos da sua vida e ficou se questionando sobre o rumo das coisas? Momentos da vida – essas coisas não se esquecem, até porque elas são armazenas em lugares especiais de nossa lembrança. Em nosso arquivo sentimental e no arquivo sentimental do outro. Guardamos.

Engraçado, né? E o amanhã chega.  E de repente você está num avião que colide com uma torre, ou melhor, duas torres – gêmeas. Ou, por um acaso, você está em umas dessas torres, trabalhando, estudando e conversando quando vê o meio de transporte voador se aproximar e prestes a colidir. E de repente, assim, sem você esperar, numa sala de aula em que você se encontra entra um atirador armado até os dentes. Você está numa sala de cinema e acontece a mesma coisa. Seu pai te joga pela janela de um prédio, sem ao menos te explicar o motivo. Seu ex-namorado te põe em cárcere privado por dias com uma arma apontada para você. Uma bala perdida te encontra. De repente você está dormindo e não acorda em sua própria casa. E de repente, você vai trabalhar e não sabe se voltará. E de repente, você está num banco e assaltantes entram dentro dele, armados e você é o refém. De repente você está numa boate e tudo começa a pegar fogo. E você está no lugar errado e na hora errada. De repente, o amanhã não chega para você. E depois, quem vai saber?

O ontem, o hoje e o amanhã são eternas incógnitas. A única certeza que temos é o agora. O que nos faz estar em segurança? Sorte? Viver pode ser questão de sorte ou sobrevivência, e esse é um jogo no qual ainda não sabemos jogar , pois as regras mudam e surpresas acontecem. A cada caso de morte que acontece, nasce uma nova indagação sobre o mistério dos acontecimentos. E de todas as tragédias citadas acima, imaginamos sem querer que nenhuma daquelas pessoas esperavam estar no lugar errado, na hora errada, mas estavam por algum motivo desconhecido. E se eles não estivessem ali? Podia ser você. Podia ser eu. Podia ser nós, todos nós. De uma só vez. Ontem, hoje, agora mesmo. 

E as coisas se repetem, os sacrifícios são os mesmos e as coisas não mudam e queremos sempre por a culpa em alguém. Tragédias essas que acontecem todos os dias. A cada hora, a cada minuto e a cada segundo. Agora e depois. Até o final do texto. Quem é o culpado? Quanto sangue vai ter que ser derramado para os homens aprenderem a valorizar a vida? O ar que a gente respira, é ouro. O nosso caminhar e até os nossos defeitos, são pérolas guardadas no nosso interior. Nossas mágoas fazem parte disso, são diamantes brutos. Qual será o nosso valor?

 E sabe lá até quando viveremos nessa impune vida que nos pega de surpresa e não nos poupa da maldade do coração dos outros. Indagações chegam sem parar. Como solucionar? Como prever? Como não errar? ''Não tem como descobrir, é melhor parar de tentar''  –  diz  sussurrando de repente e ecoando no seu subconsciente a voz rouca da frustração diante da fraqueza humana individual. O homem é o lobo do homem, já dizia Thomas Hobbes. A vida é um roteiro sem prévias. Nosso destino é narrado pelo acaso.

Então sentei naquele píer e deixei a brisa do vento me levar. E sabe de uma coisa? Depois de viver os anos que vivi, de ver o que eu vi e sentir a dor de existir, só tenho uma certeza: estar vivo é como pular em queda livre. Pode ter uma imensidão de água ao final, o chão, pedras ou alguém vai estar lá para te segurar. Você não sabe o que te espera ao mergulhar. Pula. Arrisca e só espera. E, sobretudo – espera o melhor. Você só vai saber se valeu a pena quando chegar ao final.


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4 Comente!

  1. Amei o texto, Sa! Lindo mesmo... a única certeza que temos é do agora, por isso devemos vivê-lo intensamente e fazer o que achamos bom fazer, pois não se pode voltar para fazer de novo. abraços e lindo dia.

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  2. Oi Sabrina!
    Ver esse post me fez lembrar de uma reflexão que há um tempo eu não fazia.
    Sempre me imaginei estar em situações como estas que você descreveu, porém nenhuma dessas hipoteses terminava bem. Eu me lembro bem quando aconteceu aquela tragédia da escola há 3 anos... Foi nessa época que essa reflexão ficou pesando na minha cabeça.
    E é nessas horas que eu agradeço por não estar lá, mas não sei por que, ao mesmo tempo que agradeço eu me sinto egoísta, pois quem estava lá, jamais agradeceria tal ocorrido...
    Eu vou parar por aqui, se não eu começo a vagar nos pensamentos e esqueço que estou apenas comentando um belo texto rsrs
    bjs

    Eduardo, Platina JP

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