Bata antes de entrar

05:47


Acordou. Pôs aquela sapatilha velha, uma boa calça manequim 36 apertada e uma jaqueta. O tempo nunca esteve tão ameno nestes últimos dias. Fazia um pouco de frio e a cidade estava tranqüila – pelo menos era o que dizia a vizinhança. Ela despertou naquele dia em busca de uma nova perspectiva. Precisava ver gente, não apenas arrobas e contatos virtuais de facebook e twitter. Já estava presa demais em casa. 

Tirou uma fotografia no espelho e nela colocou a seguinte legenda ‘’ Missão do dia: Arrumar um emprego. Qualquer emprego. Um que pelo menos, me faça dormir mais cedo e ser responsável’’ – postou Sophia, em seu Instagram, antes de sair de casa. 

Bateu na porta de diversos estabelecimentos. Distribui currículos. Conversou com pessoas desconhecidas (e olha que ela não fazia isso com muita frequência). Venceu cinquenta por cento da sua timidez. Tá, um pouco menos que isso. Teve que andar muito pra perceber que esse mundo não é tão justo. Muito menos as pessoas. Tadinha, não sabia ouvir ''não''. Encarou as dificuldades com azedume na alma. Era uma criança boba em um estereótipo de mulher adulta. 

No fim da tarde, chegou em casa aos prantos. Não queria conversa. Só queria chorar. Colocar pra fora tudo aquilo que sua alma captou nas últimas horas. Sua mãe lhe ofereceu um doce. Não aceitou. Estava mais amarga que café sem açúcar. Guardava em sua mente cada olhar turvo de estranhos na rua. Cada desdém de desconhecidos. Cada sorriso falso. Toda a sua auto-depreciação. Estava decepcionada. Mais consigo mesma do que com o mundo lá fora. 

Já era noite. Caminhou em direção ao seu quarto. Na porta ainda estava escrito ''Bata antes de entrar''. Girou a maçaneta com firmeza. Abriu. Estava escuro. Nada se via, nem os livros e nem a mobília. Quando acendeu a luz, pode ver a realidade em questão. Fazia uma semana que o quarto estava assim, revirado. Todas as roupas estavam no chão. Os acessórios e sapatos, misturados, assim como os cosméticos. O estojo, papéis de bala e a sua coleção de livros da Agatha Chistie. Estava tudo uma bagunça. Sentou em um canto qualquer e ali começou seu ritual de masoquismo novamente, só que dessa vez, tinha como paisagem a sua bagunça particular. Ficou ali remoendo lembranças e dificuldades. Não sabia ser feliz nem por um momento. Foi quando, de repente, ouviu um barulho na porta: 

Querida, o que você está fazendo aí sozinha? 

Eu quero ficar sozinha. 

Mas vem cá – disse o Sávio, se aproximando - você está chorando? 

Idaí? – virou a cara, e neste momento, escorreu uma lágrima. Pegou um moletom que estava ali mesmo pelo chão. Enxugou. Tapou a cara. 

Porque você está chorando? De que adianta chorar? 

Por favor, você pode se retirar? Poxa! Me deixa ser triste aqui no meu canto? Eu tenho o direito de chorar sozinha, não me tire esse direito. – virou o rosto, magoada. 

Tá bom, tudo bem, mas eu ficarei aqui. – e neste momento, ele se assentou ao lado dela. – mas o que você tem? Alguém te disse alguma coisa lá fora? 

Não quero falar. 

Então a gente vai ficar aqui a noite toda. – disse, insistente, mexendo no celular- eu tenho todo o tempo do mundo. 

Sophia o conhecia. Sabia que ele iria irritá-la com aquele joguinhos de celular. Então, resolveu falar. 

Tá. Tudo bem. – olhou para a bagunça em sua frente com uma postura reflexiva – Sabe,  eu não consigo explicar. Olha esse quarto. O guarda-roupa aberto, todas as roupas no chão, minhas coisas espalhadas... costumo dizer que meu quarto fica de acordo com meu estado de espírito. Quando ele está arrumado, é porque estou bem. Mas neste exato momento eu estou do mesmo estado que esse quarto. Não me pergunte mais nada. Basta olhar em volta

Eu tô olhando. Mas por que você não arruma cada dia um pouquinho? Assim você vai se sentir bem melhor... 

Não dá. Eu me sinto uma inútil. Eu gosto de ter importância para o mundo e não é o que tenho visto nos últimos meses. Eu só quero me sentir completa. Importante para o que eu considero importante. 

Então faz como eu disse. Mas o que você considera importante? 

Eu não sei. Tá tudo uma bagunça! – disse pondo as duas mãos no rosto, colocando em evidência sua completa confusão interior. 

Cara! Mas é fácil de resolver. Olha essa blusinha? Há quanto tempo você não usa isso? E esse sapato? Tem um monte de coisa aqui que você não usa. Já pensou em doar pra igreja? Vamos lá. Tem muita gente precisando. Vai fazer bem pra você e pros outros. Joga o que não presta fora, faz isso todo dia, depois de um tempo você vai ser sentir útil por pelo menos estar limpando o seu quarto, que realmente, está uma bagunça. 

Mas eu não to falando do quarto, idiota. Tô falando de mim! Aqui dentro ta uma bagunça bem maior. E não é tão fácil assim de se resolver. 

Ah! Desculpa. Então faz o seguinte. Vamos tentar? Ser feliz? Só um pouquinho? Esquece o mundo todo. Esse quarto pode tá uma bagunça agora. Mas eu posso te ajudar começando por aqui – nesse momento, os dedos de Sávio apontavam para o coração de Sophia. 

Você tem certeza? É muito confuso, gelado e dolorido. Não quero que você se machuque. Já pensou se isso é contagioso? 

Então vamos começar por agora. 

Neste exato momento, ele pegou Sophia no colo e juntos, foram deitar na rede lá fora. Ela contou mais um pouco dos seus problemas, mas Sávio contou piadas e seus próprios dramas cotidianos, o que a fez esquecer por um momento a bagagem de sentimentos ruins que ficavam aprisionados ali, naquele quarto e naquele coração. Não que as piadas fossem engraçadas. Mas fazia tempo que Sophia não via ninguém se preocupar tanto com seus problemas além dela mesma. Só que a diferença é que ela nunca via uma solução. Mas ele via. Sempre. E a noite terminava em beijos e com a promessa de que o amanhã seria bem melhor do que hoje. Ou melhor, que o agora é bem melhor do que alguns minutos atrás. 

Sophia de uma vez por todas entendeu que existem coisas que não batem antes de entrar. E uma dessas coisas, sem dúvidas, é o amor. 

Fazia um tempo que eu não escrevia contos com a minha personagem fixa ''Sophia'' que eu criei ano passado no começo do ano. Vocês sabem, em 2013 me deixei levar pelas crônicas cotidianas que falam sobre essa minha transição de adolescente para adulta e de todas as dificuldades que encontro por aí , e por isso e via muita dificuldade em desenvolver outros personagens. O conto ficou bem parecido com essas crônicas, mas com um toque romântico. Porque afinal de contas, meu apelo ao romance sempre aparecerá nos contos. Tenho alma de romancista, eu acho. Mas e vocês, o que vocês acharam? Digam-me tudo! É muito importante! 

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6 Comente!

  1. Senti falta dos contos de Sophia, ela estava meio sumida mesmo!!! Realmente, dizem que nosso quarto refelte bastante nosso estado de espírito, e que quando estamos em fase de mudança interior começamos com uma mudança externa, seja mudança de móveis, de visual, ou simplesmente uma faxina no guarda-roupas. Nestes momentos é sempre bom ter um amigo, alguém da família e de preferência nosso grande amor por perto. O texto ficou lindo, emocionante. Parabéns e beijos.

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  2. Gostei demais da história :3

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  3. Adorei, Sabrina! Sophia é tão eu, sabe? Tem um pedaço de mim descrito nesse texto e isso é muito bacana, para não dizer, assustador. Agora eu entendo porque você lembrou de mim ao escrevê-lo, é porque, digamos assim, esse conto seja um pouco da minha vida.

    Maravilhoso!

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  4. maravilhoso, parece ser eu .. assim, amei !

    Uaau, parabéns pelo seu blog, eu amei aqui, amei sua criatividade, seu modo de falar com os leitores, a forma que você usa nas postagens, o design e etc, eu realmente curti e vou voltar aqui sempre ! Obrigada por ter criado . Parabéns novamente e já estou seguindo ((: Parabéns !!
    http://dezesseteetantos.blogspot.com.br/

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  5. Awn, que saudades de vir aqui e ler seus textos maravilhosos *O* Sophia é um nome lindo <3 Me identifiquei com o conto de hoje, mas em uma época passada minha, já fiquei assim, mas sem a parte romântica do estória. rs Lindo conto Sabrina ><

    Beijos

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