Uma carta sem destinatário

13:28



  
Querido(a) S.,

Eu poderia começar falando de todas as nossas frustrações cotidianas. Mas isso não me faz bem e eu não quero deixar registrado nesta carta algo que eu não queria nem sentir neste exato momento. É tão clichê dizer que agora está de madrugada, pois então, que seja. Eu não deveria estar acordada. Eu poderia dizer perfeitamente que eu tô com raiva, com ódio e magoada com algo que nem eu mesma sei o que é. Ok, eu sei um pouco. É o tudo e é o nada. Nada simples. É a presença. É a falta. Disso, daquilo e de algo a mais.

Sabe, às vezes eu só queria ter alguém pra ser realmente tudo o que sou. Dizer meus defeitos, meus pensamentos censurados (aqueles que ficam no nosso subconsciente). Dizer as coisas que me incomodam e machucam, meus pecados, minhas virtudes, minhas ambições e meus maiores sonhos. Minhas frustrações e medos. Sinto falta de alguém com que eu possa chorar e chorar, sem medo do que a pessoa vai pensar. Alguém pra olhar nos meus olhos sem me julgar, apenas entender. Mas me sinto tão partida. Sozinha. Quero colo.E agora,S.?

Eu me sinto uma pizza fatiada. Cada um tem o pedaço que convêm. Alguns pegam o pedaço maior, alguns o menor. Alguns preferem com mais orégano, outros com mais queijo. Alguns só olham pela caixa, outros pelo cheiro e outros pelo sabor. Há aqueles que possuem duas fatias, três, quatro...mas ninguém. Ninguém sabe o quanto a massa foi sovada. Ninguém sabe a quantidade exata de ingredientes dela. E ninguém conhecesse o verdadeiro sabor dessa pizza inteira. Porque na prática, isso seria carregar peso demais.

Faz um tempinho que comecei a escrever esta carta. Minha cabeça tá doendo, parece que tomei um porre. Minha maquiagem ficou por tirar e meu nariz ficou entupido por causa das lágrimas e o tempo gelado. Acho que tenho um resfriado. Eu já comi um monte de coisas e tô com fome. Tô deitada e com a coberta aquecendo o meu corpo. Eu escrevi um punhado coisas soltas até aqui que pouco se encaixam. Ah quer saber, que se dane. Isso parece um pouco chocante agora pra você, ainda mais vindo de mim. Deu vontade de falar: por que não? Não tenho escolha, e se me permite – que se dane – de novo. E ponto final! 

Nos últimos dias tem sido tudo muito estranho. Sabe quando você só quer observar e não ser mais nada além de você mesma (o)? Quando você quer entender porque o mundo mudou tanto? Porque agora você tem mais motivo pra chorar do que pra sorrir? Poxa, eu costumava sonhar mais. Você lembra? Eu sempre vivia pensando numa viagem e em coisas incríveis.. Eu tinha mais fé em Deus, nos outros e em mim. Mas eu tenho vontade de sair dessa inércia. De ser feliz de uma forma inesperada e de rir com amigos na calçada. De realizar grandes projetos e ser boa em qualquer coisa que eu faça. Eu ainda não tô preparada pra perder, se é que me entende. Essa não é a minha hora de perder, eu sinto isso. Entende?

Hoje a minha prima me ligou perguntando o que estava acontecendo comigo. Nós agora trabalhamos no mesmo lugar. Ela me perguntou se eu estava triste ou chateada com alguma coisa, pois toda vez que ela me olha, eu tô com um semblante pesado, fechado e sério. Eu tentei visualizar o momento. Isso acontece porque eu penso demais . Eu vejo um filme futurista (e quase sempre desastroso) sobre a minha vida e as coisas que eu faço nela. E aí, como não tenho onde desabar toda essa tensão, um hora ela fica evidente demais aos olhares alheios.

Algo está muito errado nisso. Não tenho escolha: vou ser sincera. Não dá, eu não consigo me enganar, mentir pra mim mesma sem me preocupar. A verdade? Ok. Eu sou tão ansiosa que eu já penso em tudo que pode vir a acontecer a todo o momento. O que falarei na próxima frase, como brincarei com as palavras e o que vai acontecer depois que eu acabar de escrever essa carta. A minha vida, esse ano, ficou presa em momentos pequenos. Bastou um descuido pra eu deixar um sonho se perder. Bastou um dia pra eu me ver atrás de um balcão tendo que ser simpática com todas as pessoas que entram na loja, dizer bom dia, boa tarde e boa noite seguidos de sorrisos abertos e expressão interessada (sem querer estar assim). Eu quis isso, eu procurei esses momentos. Uma vez me disseram que tudo na vida é uma oportunidade. Em umas dessas oportunidades eu ainda não sabia o valor dos momentos. E na outra, eu já quis agarrar pra ver o que eu posso ser e fazer.O resto? A gente vai ver, com o tempo. Não vai?

A verdade de tudo isso é que a vida é uma escada, uma grande e enorme escada e, caracol. Você começa de baixo e vai subindo os degraus. De que adianta pular etapas? Descer pelo corrimão e correr o risco de se espatifar no chão? O fácil é duvidoso. O difícil nos faz dar valor ao que temos. 

Entao, querida. Agora as minhas lágrimas se foram. Você me disse mil vezes: ''não adianta ter pressa. E não adianta voar, sem antes, manter os pés no chão. É isso que a gente precisa pra ser forte. E encarar a vida''. Vou tentar te ouvir mais. Seguir meu coração.E de uma vez por todas, tirar as reticências e terminar essa história. 

Acho que agora é hora de dar tchau. Até o ponto final, ass: Ela mesma, ops, eu mesma.  Sophia. A do começo da carta. A que estava aqui esse tempo todo. A única pessoa que pode mudar tudo isso. E encontrar um novo rumo pra essa história. 

A minha história.

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