Codinome Peter Pan

22:54


Abri a janela. E numa madrugada estranha de um dia normal ele apareceu. Sonhos existem quando estamos dormindo mas aquilo era muito melhor, porque parecia a mais pura realidade construída de sonhos. Ouvi um barulho estranho no quarto. Quem estaria a me atormentar por essas horas? Levantei, então aos poucos, repousei na janela e ali senti a brisa, o calor e a sensação do desconhecido.

''Quem é você, menino estranho?'' eu não sabia responder. Então ele chegou dos céus, mas chegou tomando espaços que nunca foram teus. Pensei que não era assim, murmurei  ''não te quero aqui, não te conheço''. E nem assim adiantou. Pegou tudo pra si. Apertou o botão ''ponto fraco''. Descobriu como abrir espaços. Espaços que o meu coração e o destino o deu, na bandeia da ingenuidade. Eu queria conhecer essa estranha criatura. E timidamente ele apareceu, pro mundo, pra nós. Pra mim. 

Então depois eu abri a porta. E ele ficou por aqui.

Minuciosamente. Ele só sabia seduzir, atrair e convencer: com palavras e gestos. Quão belo era aquele rapaz! Suas palavras eram tão belas que nunca ninguém jamais poderia duvidar daquela figura tão juvenil. De onde viera aquela inocência mascarada? E eu achei por um momento, ter descoberto um tesouro neste ser. Provei da doçura de sua mansidão, calma...simplicidade. Quem poderia ver maldade naquele olhar? 

Eu já estava farta das dores desse mundo. Das amarras que um dia já deixaram no meu coração. Um dia ele apareceu e consigo, trouxe a belíssima de liberdade. Quem não quer? Ah, ah liberdade! E com ele, descobri que com pensamentos leves, pensando em coisas boas, nós podemos simplesmente...voar. Disse ''sim, você pode voar, é só tentar''.  Destemida tentei. Acreditei. Me permiti. Mas é claro! Eu podia voar. E quem não pode?

Eu voei. Pra bem longe de mim, por sinal. Voei com Peter Pan.Como uma menina perdida, eu mudei. Saudades já não existiam mais. Virou vício estar com aquele rapaz. Eu só queria voar. O tempo to-do. Não existiam tempestades , juntos éramos mais. E nem obstáculos - nada era capaz. Descobri um sorriso que não era meu, mas que até me caía bem. Ele não tinha nada demais à oferecer, apenas sorrisos passageiros, o que já me bastava. E por tão pouco, eu quis permanecer. 

O que eu vi nele? O que ninguém nunca conseguia enxergar. Uma vontade de ser menino. Uma atitude anacrônica. Uma realidade inesperada. O céu. E já não me importava com os ganchos de seu passado. A gente enfrentava. Era forte. E a gente acreditava. Nada mais seria capaz de destruir aquele sensação de felicidade eterna que o jovem rapaz trazia em seu falar. Presa eu estava no seu olhar.

Eu estava apaixonada por Peter Pan. 

Ainda que o tempo passasse, as coisas mudassem, ele não queria crescer. Seria Peter Pan uma farsa? E foi aí que eu descobri uma pureza falsificada em trajes de dor. Eu estava apaixonada por um estereótipo de príncipe encantado. Opa...príncipe? Peter pan não era príncipe. Nunca foi. Ele queria ser criança. E da pior forma, descobri que o seu brinquedo preferido era os sentimentos. Ele adorava brincar. E ainda brinca. Todo dia. Quem se importava? Era tudo beleza, pureza. Mas a tempestade chegou quando ele optou usar os meus sentimentos sem pudor. E lá ele os jogou. Lá mesmo. No mar. Pra brincar.

Não. Não dá. Uma menina como eu, ainda que queira passar a vida a brincar, sabe que é preciso junto com o tempo andar. Senti saudades do seguro, do concreto, daquilo que posso tocar. Senti saudades de ver o tempo passar. Crescer. Eu queria aquele rapaz, mas também queria andar. Eu queria acordar do sonho sem perdê-lo, sem me magoar. Mas quem iria Peter Pan mudar? Ninguém. E foi aí que eu decidi: distante quero estar. 

Voltei pra casa. Ás vezes a gente precisa parar de voar. É pra frente que se olha. É pra cima que se implora. E nós só podemos continuar a caminha firmes, com os pés no chão. Eu tentei não deixar. Convidei-o a passear. Peter Pan não queria ficar, menino queria permanecer. Amadurecer? Que nada, nada, nada podia o parar. Ele decidiu que será pra sempre infantil. E partiu.

''De que adianta me dar o céu, se não posso ter os pés no chão?''
A dor era inevitável, mas num ato de coragem eu disse ''Adeus, Peter Pan!''. Então lá ele se foi. Voando, solitário, doce...amargo, perdido - pra sempre menino. E levou embora consigo as suas guerras e a incógnita de sua falsa paz. Ninguém entende, mas a verdade a gente sente, ela jamais mente: de ilusão era feito aquele rapaz. E o meu coração seria eternamente a terra do nunca...mais.


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1 Comente!

  1. adorei seu texto!! Estava com saudade de vir comentar, e ler seus post realmente e não pelo celular que por sinal não é a mesma coisa né ;)

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