Nem tudo está perdido

18:52



Dia desses, indo para a faculdade, uma coisa me surpreendeu enquanto eu atravessava uma passarela de um dos pontos da Av. Brasil . Ando sempre agitada quando estou nesse lugar. Primeiramente, porque eu estou sempre preocupada em chegar atrasada e perder as primeiras aulas do dia. E depois, porque a violência urbana nos exige pressa em certos locais de risco, e com certeza naquele ponto como em tantos outros da avenida, são locais de extremamente risco. Sei disso porque não sou só eu que passa correndo por ali.

Naquele dia estava  andando em passos largos , mais rápidos que o normal. Foi aí que sem ao menos esperar, uma mulher desconhecida me abordou. 

- Menina , seu guarda chuva caiu no chão. 

Olhei pra trás e o vi lá, despretensiosamente abandonado. Voltei e peguei. 

- ''Obrigado'' - eu disse, agradecendo à moça estranha pela gentileza e pelo aviso. Afinal, ela poderia apenas ignorar, como todos que estavam ali essa hora fizeram, mas não. Ela optou por ser ''solidária''. Isso me alegrou muito.

Depois desse mini-episódio cotidiano, resolvi passar um pouco mais lentamente pela passarela, pois estava refletindo sobre esse contínuo bloco de informações que recebi no momento do aviso. Foi aí. novamente, sem eu ao menos esperar, uma segunda mulher, um pouco mais velha, se aproximou de mim e disse:

- Só um minuto, deixa eu fechar a sua mochila. - E em silêncio, eu virei às costas e ela fechou.
- ''Obrigado mesmo''. -  eu disse, achando muito estranha aquela atitude, afinal, ela falou comigo como se já tivesse me conhecido de algum lugar. E eu, provavelmente, também a tratei da mesma forma. A partir daquele momento, sem perceber, nós nos tratamos por alguns segundos como conhecidas, quem estava passando por ali provavelmente deve ter achado isso. Depois do adeus, apenas éramos duas almas nesse mundo que provavelmente nunca mais se esbarrarão. E se nós nos esbarrarmos algum dia, consequentemente não nos lembraremos desse momento.

É engraçado como pequenos gestos podem mudar o nosso dia e a nossa concepção de ver as coisas. Às vezes, em algumas etapas difíceis de nossa vida, perdemos a fé na vida, no mundo e em nós mesmos. Estamos cada vez mais incrédulos, desmotivados, desacreditados. Mas enquanto houver percepção e sensibilidade, esse olhar em volta que tanto nos falta, ainda haveremos de salvar e guardar em um lugar nobre toda coisa boa que esse mundo ainda tem a nos oferecer. Sim, ele tem. Basta você querer perceber. 

Nos últimos meses, aprendi a ver a vida de um modo mais bonito, sabe. Aprendi sorrir para desconhecidos e ser gentil pessoas que provavelmente jamais passarão por mim novamente. Ando deixado um pouco de melancolia pra depois. Apesar de ainda enfatizar coisas tristes em alguns textos ou desabafos - ninguém é totalmente de ferro -  aprendi ,sobretudo , a ver o mundo de uma perspectiva mais otimista. Isso nos torna corajosos. Afinal de contas, se pensarmos bem, o pessimista não é nada além do que alguém que tem medo de se decepcionar.

Os medos nunca nos levaram muito longe. Viver já é um risco. Então, acredite: é feliz quem aceita que as decepções e perdas fazem parte da vida. E o que importa mesmo, é a alegria no olhar e a capacidade humana diária de conseguir transmitir o seu melhor ao outro, mesmo que ele seja um estranho que você encontrou na Avenida Brasil ou qualquer pessoa da sua família. Buscar o melhor em nós mesmos e nos outros, não importa quem eles sejam. Nesse caso, isso é o que menos importa.

Foi aí que a frase ''fazer o bem sem olhar a quem'' pela primeira vez, teve um significado efetivo no meu universo e nos meus pensamentos particulares. Foi ali que todas as minhas indignações sobre tudo que eu disse em inúmeros textos-desabafos foram curadas. E a partir daquela hora, aprendi e validei o meu modo esperançoso de pensar sobre essa humanidade. Não foi nada demais. Apenas uma atitude, quase involuntária, intrínseca ao nosso cotidiano. Uma gentileza significativa  de duas mulheres que me fez enxergar uma única coisa: nem tudo está perdido.



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4 Comente!

  1. Verdade, flor... existem pessoas boas no mundo. Já me aconteceram muitas coisas boas e surpreendentes nesse sentido, mas eu nem culpo as pessoas "desacreditadas", pois o contrário existe do mesmo modo, nem vou contar o que aconteceu comigo outro dia desses para não negativar seu lindo texto. beijinhos

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  2. Fala parceira!
    Eu curti muito a parte do texto em que você usou a expressão do não sermos de ferro com uma conotação positiva, pois geralmente (para não dizer a regra) ela tem negativa.
    Concordo que não somos de ferro para ver o mundo o tempo todo, as 24 horas por dia como um breu. Fiquei impressionado com a sua segurança no segundo caso, como sou muito desconfiado, se estivesse com uma mochila e alguém chegasse perto já ia vazar. rs.
    Mas você provou que nem tudo é negro neste post. Parabéns.
    Precisamos de mais relatos e textos desta categoria.
    Abraço e até.

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  3. De fato, Sabrina, nem tudo está perdido! Sempre que vou ao Rio (sou de Volta Redonda, interiorr), fico observando como as pessoas andam apressadas e inseguras. Às vezes acabo agindo assim também de forma forçada, porque meu jeito não é esse, sou dessas que procura se doar às pessoas, mas não sou ingênua de achar que todos são como eu. Sendo assim, acho que na sua situação eu agiria como a senhora que se ofereceu para ajudar, mas se alguém se oferecesse para fazer o mesmo por mim, talvez ficaria cabreira como o Chris disse ali em cima rsrsrs...

    Enfim... ótimo texto! Gostei de ver sua percepção de que nem tudo está perdido e que pequenas atitudes podem até não mudar o mundo, mas muda a nós mesmos. Isso porque vc é mto novinha, e geralmente as pessoas demoram um pouco para aprender isso, bom saber que vc não está esperando tanto tempo. Bjus e até a próxima.

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  4. Acredito que a mudança sempre estará em nossos próprios olhos. Depende da maneira como vemos o mundo à nossa volta, como nos vemos. Devíamos ser mais atentos ao que parece simples, pois é nessa simplicidade que mora a essência da vida.
    Identifiquei-me com o texto, pois também tenho tentado estar nesse movimento rumo ao otimismo e acredite, é muito melhor, te faz mais feliz.
    É amadurecimento, crescimento pessoal e acima de tudo, engrandecimento.

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