Incompletudes

09:22



O livro que você deixou de escrever e ficou pela metade, o filme interrompido antes das cenas finais e que você jamais voltou assistir, a palavra não dita.  A faculdade que você largou no quinto período, e as outras 4 que você largou no segundo. O elogio que você deixou de dar ao seu irmão e o agradecimento que você nunca deu ao seu pai. O orgulho que você jamais deixou de lado, depois de um dia difícil. A omissão que acabou com tudo logo de vez. Nós. Não há muita diferença entre essas coisas, por incrível que pareça. Meu bem, você nem sabe que sempre teve um pedacinho do mundo em suas mãos. Pedaços, metades, cacos, destroços - resquícios de uma vida conturbada. Mas de nada adiantara...nunca adiantou. Sabe por quê? O inconcluso não possui valor algum.  

O concreto se torna essencial pra vida, apesar da poesia nos fazer voar. E quando estou voando e vagando pela realidade com alma de poeta, vejo que o incompleto também é o irreal, porque que se trata exatamente daquele pedaço lá que talvez nunca tenha existido. E se existiu, somente na imaginação, nas hipóteses e quem sabe em sonhos. E esses são raros em precisão. Não há nem uma possibilidade, talvez, de restituição. Como restituir algo que jamais existiu?

Tudo se torna mais complexo quando se trata principalmente de você aí e eu aqui, porque antes era eu e você em todos os lugares. É como não conseguir explicar porque não penso mais em você ou em nós, com alegria, nem tristeza ... apenas dúvida, nem ao menos ''saudade''.  É contar com a divisão da rua, quando você está de um lado da calçada e eu de outro. Eu só consigo ver ali novos desconhecidos que tanto se conhecem, ou que pelo menos, acham que se conhecem pelo menos um pouco. Normal.

Fomos duas metades que nunca se completaram. Não há lembranças, nem boas e nem ruins. Só algumas poucas memórias que às vezes aparecem em pequenos flashbacks diurnos em coletivos.  Só consigo pensar e lembrar daquele fim de tarde, daquele final de primavera que...ficou assim, por dizer deixando escorrer algo pelas suas mãos liberais.

O que ficou por aqui é algo totalmente indecifrável. É como essas palavras que insistem em escapar pro lado de fora, transcritas por aí ao léu e revestidas de um pouco de malícia, mistério e dor. É como a chuva de fim de verão, acabando com as expectativas de uma burguesia carnavalesca. É como o ar puro de cidades afastadas ou como uma noite no litoral, numa praia deserta, sentindo o vento forte que vem do mar e o barulho das ondas quebrando lentamente. É sentar-se naquela areia gelada, e pensar que no mundo não há nenhuma tranquilidade parecida, e que não há nada mais incompleto como estar ali, sozinho. É a falta, a ausência daquilo que nunca esteve. É como estar vagando solitariamente numa rua qualquer às 14hrs de um dia útil ouvindo a metade daquele álbum de uma banda britânica desconhecida, desconhecendo a metade das letras da nova trilha sonora da sua vida. 

É como o mundo que divide esse riacho de sentimentos confusos. É tudo aquilo que a gente deixa pra lá, e larga de mão, sem valor sem qualquer reação. O indiferente é o que te torna morno, ainda mais por agora.  Acorda! Não abaixe olhos, erga a cabeça, jovem. Quando lembro de nossa história, nem os fatos mais banais possuem alguma ligação com a realidade, porque algo sempre ficou no ar. E se hoje ainda possui algo que ainda ficou por dizer, é porque talvez tudo não tenha passado de uma ilusão perdida.

Uma história nunca pode ficar sem seus últimos capítulos ou na dúvida se o final foi feliz ou triste. Então o que haveríamos de ser se simplesmente isso tudo não teve ''o final''? Justamente. O que fomos talvez não tenha sido uma história, talvez tenha sido...nada? Bem, nem um e nem outro - apenas não foi. Só isso. Como tudo aquilo fica incompleto.

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2 Comente!

  1. Adorei o texto e concordo.. se algo não chegou ao fim, é como se na verdade não tivesse existido de fato. Faltou algo, o desenlace, o (un)happy end, a conclusão, o arremate. Faltou o sentido.
    Enfim, ótimo texto como sempre. Adorei o novo visual do blog ( a preguiçosa só entrou aqui depois de duas semanas e viu a mudança...ehehhe).

    Até!

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  2. Muito bom. Como diz aquele conselho clichê "é melhor arriscar do que ficar na dúvida, arrepender-se do que foi feito, do que não foi feito". Aprendi isso com a vida.

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