Ensaio sobre a morte

18:53

Imagem de botany, cloak, and death


Era uma sexta-feira de outono. No meio de uma madrugada fria, um desconhecido. O cenário perfeito pra me fazer correr e fugir. Ainda sem razões conhecidas, você chegou com sua falsa cordialidade e se aproximou de mim. Eu, totalmente desinteressada, te perguntei por que raios você decidiu que seria uma boa ideia vir falar comigo. Você disse que eu parecia interessante. Eu, acostumada a fechar portas, num momento de insanidade mental, deixei você entrar. Loucura? Talvez. Na verdade, acho que eu sempre soube que quebrar a regra primordial da minha mãe de "jamais falar com estranhos" não seria uma boa ideia. Mas , eu já estava farta de fazer sempre o certo. Cansada de fazer o que me aconselhavam. Fingi normalidade, mesmo sabendo que nada daquilo era normal. Ali, quebrei a minha primeira regra.  

Malditos: o destino, eu e você. Das inúmeras coincidências dessa vida, nosso encontro foi a pior delas.  Entramos num caminho sem volta. Aliás, eu entrei num labirinto sem saída. Eu nunca tive medo de ser vulnerável. Não sou boa em esconder as coisas, então, é fácil notar em mim um alguém frágil. Isca perfeita. Naquele momento, eu não sabia nem quem eu era direito. Na verdade, já estava perdida há tempos. Mas você , ao contrário, sabia muito bem o que queria. Você sabia quais eram as suas intenções - as piores possíveis. Tanto investimento, tanta atenção. Tantas horas no telefone, tantos convites, conversas. Pouco a pouco, você cativou em mim um sentimento único e sincero. Ali, eu já não era mais quem eu costumava ser.

Desde o princípio, eu percebi que na minha vida não havia espaço pra alguém como você. Você jogou sujo. Você usou e abusou da minha principal fraqueza, a bondade. E eu, ignorando completamente o riscos, caí nas suas armadilhas. Eu te encaixei onde nem tinha encaixe. Você ocupou espaços que nunca deveriam ter sido seus. Você me invadiu, me desapropriou até de mim. Como eu não pude enxergar? Eram tantas as ciladas, às vezes nem tanto mascaradas, e mesmo assim, eu caí . Uma a uma. E quando eu achava que estava tomando controle tudo, eu era o brinquedo. Até o final, quando eu já não conseguia mais respirar  e quando você já havia consumido todos os meus pensamentos, meus sentidos e a minha auto-estima.  Ali, naquele exato momento, eu permitia, decretava e assinava a minha sentença de morte.

Levianamente, você percebeu que era difícil corromper alguém como eu. Você tentava, mas não conseguia. Você decidiu, então, mudar as suas estratégias. Você começou a não alimentar as expectativas criadas. Tarde demais. As expectativas já estavam bem altas. E quanto maior a altura, mais barulho faz a queda. Caindo do precipício, eu demorei muito pra notar que todo o estrago já tinha sido feito. Que já não havia como apagar aquilo que você tatuou em mim. Despretensiosamente, meu coração estava partido. Você destruiu aquilo que eu havia de melhor.Você confundiu a minha mente, entrou no meu subconsciente, despertou em mim alguém que nem sabia que existia. Irresistivelmente, você conseguiu entrar na minha vida. Bagunçou tudo e depois saiu como se nada tivesse acontecido. Como eu pude permitir? Não sei. Ali, foi quando tudo começou a acabar para mim.

Eu não sei explicar como isso tudo aconteceu. Respirando com a ajuda de aparelhos, totalmente desnorteada, eu fiquei sem saber o que fazer. Como você conseguia ser tão frio? Aos poucos e com toques de crueldade, você me feria e mostrava sua verdadeira face. Tão de repente quanto a sua chegada, foi a sua partida. Você me apagou e sumiu. E cada vez mais, eu fui ficando sem ar. O que sobrou de mim, agora são somente algumas partes quebradas de alguém que tinha o costume de se deixar cativar. Os restos mortais de alguém que acreditava muito em tudo e em todos. Que acreditou em você. Doeu . Dói. Você só causou dor. Você deveria saber de tudo isso, mas você nunca quis saber nada sobre mim. E foi assim que o inevitável aconteceu. Você me matou. E ali, eu morri.

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