A pedagogia das flores

12:58



Em um dia triste, eu comprei um buquê de rosas e girassóis para mim mesma. No auge da minha independência, quis, mais uma vez, provar pra mim mesma que eu não precisava de ninguém. Já tinha cansado de esperar que alguém me presenteasse com minhas flores favoritas e eu mesma quis fazer isso. No fundo, eu tinha a esperança de que aquelas flores pudessem curar e preencher o vazio que eu tinha aqui dentro. Eu fiquei feliz por 20 minutos, mas depois o sentimento voltou.

Tirei as flores do pacote e coloquei em um vaso, no centro da minha mesa. Nunca fizera isso antes. É diferente quando a gente faz algo que muda a perspectiva da sociedade, não é? No aplicativo, o dono da loja de flores me perguntou se eu desejava escrever alguma mensagem. Claro que ele pensou que as flores seriam para alguém... É o esperado. E eu disse que não precisava, porque elas eram pra mim mesma. Talvez isso o tenha chocado um pouquinho, mas ele só respondeu: “Que linda”. E sozinha, eu sorri.

Talvez, nos últimos tempos, eu tenha chocado um pouquinho algumas outras pessoas também. Talvez não somente nos últimos tempos, mas nos últimos anos. Nunca ninguém conseguiu lidar muito bem com meu jeito de ser. Eu sempre quis ser livre. Minha mãe sempre me criou para ser uma mulher independente, mas eu sempre quis ir além. E fui. Mas, ao mesmo tempo, cresci com aquele olhar positivo sobre a vida, sobre as pessoas, sobre o amor... com uma fé enorme no mundo, na vida e nas pessoas. E, apesar de ser forte, essa sempre foi a minha maior fraqueza. E eu nunca fui atenta o suficiente.

Dois dias depois, as rosas começaram a murchar. Meu coração se entristeceu. Apesar de gostar de flores, eu nunca tinha entendido como cuidar delas. Os girassóis permaneceram mais inteiros, mas as rosas... tão frágeis, já estavam se desfazendo em tão pouco tempo. Amo as rosas vermelhas porque elas me representam: quentes, intensas, belas, românticas... com espinhos. Mas elas eram tão frágeis que mal suportaram dois dias no meu vaso. A minha alegria logo se transformou em frustração: como eu iria salvar aquelas rosas?

Lembrei que, uma vez, em Belo Horizonte, eu vi uma rosa solitária em um canteiro da Praça da Liberdade. Diferentemente das minhas rosas, aquela rosa estava bela: aberta, saudável e brilhante. Mas ela estava sozinha, em um jardim... livre. E talvez essa seja a grande diferença. As rosas do meu vaso não tiveram tempo de florescer sozinhas em um grande jardim, livres. Elas foram colhidas antes de abrir e já colocadas em um buquê que tinha o objetivo de deixar a minha tarde de domingo mais feliz... Mas tiveram um triste fim: acabaram por morrer sufocadas, murchas, tristes... já não tinham salvação. 

Sem perceber, aprendi uma grande lição com as rosas. Antes de morrer e murchar, eu estou tendo a oportunidade de viver sozinha na praça da liberdade da minha vida. Como aquela rosa, eu estou nesse jardim. Nem todos os dias serão ensolarados; vai haver chuvas, tempestades, insetos, diferentes pássaros... Mas só há possibilidade de florescimento se permanecer sozinha. Livre de buquês ou vasos, como geralmente insistem em encaixar as rosas.

Mas e os girassóis? Depois de tirar as rosas mortas do meu vaso, o que me restou foram os girassóis. Eles permaneceram lá, apesar da minha falta de cuidado. Aparei as pontas, troquei a água. Talvez eu também fosse um pouco como os girassóis. Eles continuavam ali, sustentando as pétalas amarelas, como se ainda procurassem uma fresta de sol dentro da minha casa. Não estavam intactos, apenas demoravam mais para demonstrar o que lhes faltava. Talvez exista em mim essa parte que insiste em procurar luz, mesmo depois de ter sido arrancada de algum lugar.

O que vou fazer com aquilo que fizeram de mim? Até quando vou permanecer refém das intempéries da vida? Viver é se arriscar. Ser flor é resistir, mas também aceitar a própria fragilidade. Talvez seja essa a grande pedagogia das flores: elas não escondem seus espinhos, não negam o tempo, não deixam de buscar a luz. Eu sigo viva, apesar dos pesares. Ainda sensível, ainda inteira, ainda aprendendo a florescer sem me deixar arrancar de mim mesma. E, se um dia alguém me perguntar o que restou de mim depois de tudo o que passou, responderei sem temor: enquanto eu não perder o farol, serei rosa e girassol.

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