(Isso não é uma indireta)

11:56

Hoje eu acordei sem despertador. Olhei para fora, o céu estava azul. Peguei o meu café de cápsulas, intensidade 8, intenso, como tudo aquilo que eu sou. Manhãs que sempre são tão corridas pra mim hoje me permitem contemplar, revisitar e parar. E, de repente, minha mente viaja entre as lembranças de um passado muito recente.

Tomo um gole de café. Amargo, como o gosto da vida nos últimos dias. Conto as horas de uma espera que nunca tem fim, como se, a cada minuto, o coração perdesse mais um pedaço. A dor do silêncio, que dilacera o meu coração, tão cansado de sofrer, a cada minuto dói mais um pouquinho. Difícil é ficar triste quando, depois de muito tempo, você consegue se sentir feliz. Mas, no fundo, a gente sabe. A gente sabe quando essa felicidade não é genuína, é alugada, é temporária. 

(A gente só não quer acreditar.)

Difícil é fazer a minha atenção voltar para aquilo que eu preciso fazer. É sempre esperado que a vida oscile entre altos e baixos, e eu já deveria estar acostumada. Mas te olhei e me esqueci de tudo o que era lógico pra mim. Eu simplesmente ignorei tudo: todos os avisos, sinais, sensações e incoerências. Eu me joguei sem me proteger. Eu mergulhei no mar sem saber nadar. Eu me afoguei. E agora eu preciso aguentar as consequências.

É hora de tomar meu antidepressivo, marcar a hora da aula na academia, ver o treino de hoje. A vida não parou. Preparar aulas. Pensar em uma nova maneira de revolucionar o mundo, porque é isso o que me move, é isso o que eu sou. Tanta coisa a se fazer, mas, essa manhã, eu vou me permitir... descansar. O coração tá cansado. E a mente pesa. Entre a felicidade de estar traçando o caminho que eu escolhi pra mim, de me tornar a mulher que eu sempre sonhei em ser, eu lembro de você. Involuntariamente.

(Maldito cérebro.)

Eu não posso fingir. Não estou bem. Sinto sua falta. Mas sei que, no fundo, foi melhor assim. Não desse jeito torto e incoerente, que me confunde e questiona. Mas algo em mim me dizia que poderia acabar assim. E, apesar de a razão me dizer que o melhor sempre está por vir, de estar conformada e até um pouco feliz, mesmo, porque, fazendo um balanço de tudo aquilo que vivemos, o nosso encontro foi lindo e me mostrou coisas valiosíssimas sobre mim, sobre a vida, sobre a minha capacidade de sentir coisas boas... ele revelou as minhas fragilidades, coisas ruins também. 

Sou um ser humano imperfeito, que se apaixona e que vive suas paixões, que olha a vida com um certo otimismo, mas que, desde muito cedo, teve a existência perpassada por dores, traumas que estão cicatrizando e feridas que ainda precisam cicatrizar... Que ainda precisa amadurecer em alguns pontos. E que bom que hoje eu posso olhar isso com mais clareza, mesmo em meio à dor. Tenho a consciência de que machuquei e fui machucada, e, mesmo sem ter tido a oportunidade de me explicar, é algo que devo melhorar. Um belo aprendizado.

(Não, isso não é uma indireta).

Considere esse texto uma carta aberta. Ela tem destino, nome, endereço. E, se um dia qualquer, por acaso, você ler essas palavras, você mesmo, aí do outro lado dessa tela fria... você sabe que é pra você. Já que tudo o que eu tenho é a sua ausência e o seu silêncio, tudo o que me resta são as palavras escritas. Eu te transformei em palavra pra preencher esse vazio que você deixou aqui. Você sabe, como ninguém, eu uso a arte para entender a minha dor. E funciona. Eu já entendi um pouco até. As lágrimas que rolaram enquanto eu escrevia os primeiros parágrafos desse texto já secaram. 

(Ainda não está tudo bem. Mas vai ficar.)

Fecho os olhos e tento transformar aqui dentro o que dói em algo bonito. Foi bonito, foi intenso e foi sincero. Eu quero me apegar àquilo que foi bom. E que bom que tudo foi tão breve, que não deu tempo de virar uma lembrança ruim, pelo menos pra mim. Fecho os olhos e vejo você. E mesmo ainda triste, eu sorri.

E, se eu soubesse que aquela seria a última vez, eu teria engolido as horas. Eu teria usado todos os meus sentidos para guardar aquele momento. Eu teria me demorado mais, te tocado mais, te beijado mais. Eu teria degustado você mais intensamente, completamente. Se eu soubesse que aquela seria a última vez, eu teria usado todos os meus sentidos para guardar cada pedacinho de nós. Eu teria usado cada parte do meu corpo para sentir o seu. Eu teria te olhado dormir a noite toda. Eu teria sentido e respirado profundamente, pela última vez, o seu cheiro único de perfume , cigarro e álcool. 

(Mas a gente nunca sabe.)

Pra ser sincera, eu não queria que esse texto acabasse. Assim como eu não queria que acabasse o que nós tivemos. Mas tudo o que é bom, acaba. E eu sei, eu preciso e vou aceitar. Então eu termino aqui, mesmo sem querer. Porque, às vezes, é necessário saber colocar um ponto final ... mesmo se o coração ainda queria continuar escrevendo.


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