Coadjuvante

17:44



Hoje eu acordei a mesma hora que acordava três anos atrás. A vista ainda estava embaçada e a cabeça doía. As cobertas juntas com o ar condicionado soavam em silêncio uma linda canção de ninar. O travesseiro me chamava e me atraia como um imã. E sem mais delongas, o telefone começou a despertar acabando com todo o romance daquela hora em que o sono iria me puxar de volta para a cama, a qual estava de braços abertos a me receber a qualquer hora do dia.

Caminhei até o banheiro, escovei os dentes, tirei os nós do cabelo. Tomei um banho quente. Sequei-me e fui ver o que iria vestir. Abri o guarda roupa, e puxei a primeira coisa útil que estava nele. Dessa vez, não vesti a saia e nem a sapatilha. Não precisei pôr uma blusa de botão, nem uma gravata ou uma estrela. Olhei para o espelho, aflita e insegura. Perdida e sem saber ao certo o que estava fazendo.

Apesar de acordar a mesma hora, percebi de imediato que agora a realidade é diferente. Agora eu trabalho. Eu cresci, amadureci. Não sou mais criança, sou adulta. Adulta. Adulta.A-dul-ta. ‘’Gente grande’’. Eu olho no espelho pela segunda vez depois de me arrumar e vejo o mesmo rosto que via nos tempos de colegial. O mesmo rosto que agora vai saber o que é a vida de verdade. Não quis passar o batom vermelho. Já não tinha vontade de me maquiar como todos os dias eu ia para escola. Um brilho labial e pronto, ótimo. Era diferente dessa vez. Já não havia animação de ver as amigas, de conhecer professores, de ver quem estava na escola . Essa sensação já não existia .Era nula.

Vesti a calça e uma blusa. Deitei e esperei a hora de sair. Desci as escadas e olhei para o mesmo caminho, a rota era diferente dessa vez. A rua estava silenciosa. Chegando no centro da cidade, encontrei os jovens , adolescentes e crianças animados com a volta as aulas. No ponto de ônibus via alguns chegando de lugares mais distantes. Todos indo sem uniforme e para muitos, aquele dia seria o começo de algo novo. Tudo novo de novo. Inclusive pra mim que preciso olhar para o espelho todas as vezes que quero encontrar as respostas das perguntas que nem se quer fiz. Andei em passos decididos. Não estava com o fone de ouvido.

Cheguei ao trabalho, um pouco atrasada e causando má impressão de imediato por isso. O lugar era colorido, recheado de fantasia e emoção. Na parede via os números em emborrachado e as letras do alfabeto. Os pais deixavam as crianças na porta e saiam com um sorriso enquanto a professora os dava as boas vindas. Um lugar peculiar. Uma escola com grades, gramado e brinquedos. Eu estava lá, de novo, após 10 anos sem pisar em um lugar como aquele. Eu não era a professora. Eu não era aluna. Eu estava ali como auxiliar, ajudante. Agora é a minha função do momento. A realidade se encarnou, agora é hora de aceitar o fato de sair do mundo em que estava e voltar, para o começo da história em outro papel. Parecendo mais uma coadjuvante sem direito a remake. Agora é a vez de enfrentar o palco, sozinha, ser aprendiz e um pouco sorrateira quando for preciso. 

Ao chegar em casa, olhei mais um vez   última vez – para o espelho e tive a certeza de que hoje de manhã vivi uma espécie de flashback, uma novela, um ‘’vale a pena ver de novo’’ ao vivo e a cores . A atriz era a mesma. O elenco mudou mas a história também se repetia: Uma sala de aula. A primeira professora. Os corredores da escola. O mesmo rumo. A mesma trama e o mesmo roteiro. Mas a protagonista dessa vez, não era eu.


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5 Comente!

  1. Gostei muito do texto. Quando a gente cresce e percebe que não é mais como antes é tudo tão diferente. O uniforme muda, não é mais o do colegial e sim o do trabalho. Beijão <3

    www.detalhesamor.blogspot.com

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  2. Que texto lindo, adorei. Muita sorte nessa nova etapa.

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  3. Sim! Massa o layout novo! (:

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