De Sophia para Paul

17:47


Querido Paul, 

Esta é a primeira e a última vez que lhe escrevo após 5 anos do nosso rompimento. 

Minha vida é uma piada. A vizinha de cima não vai com a minha cara. Meu melhor amigo não puxa mais assunto comigo, não liga e nem manda mais recados. Minhas atitudes e teorias são indiferentes, não agradam e nem aterrorizam. Minhas amigas arranjaram amigas melhores. Eu não me encaixo. Meus pais só reclamam de mim e meu namoro, vai de mal a pior e está prestes a acabar. Não consigo realizar minhas metas, e sempre, acabo dando de cara na parede e me decepcionando pelas oportunidades perdidas ou pela chance não aproveitada. Às vezes penso que talvez isso seja um castigo por todas as coisas ruins e erradas que fiz durante a minha vida. Às vezes eu penso sobre tudo e nada. Nunca concluo meus pensamentos e não entendo onde foi que eu errei.

Sempre procurei agir da maneira certa, sempre. Mas ás vezes, a maneira certa de agir no meu ponto de vista, era só mais uma inutilidade pras pessoas a minha volta. Era o errado, não era o certo. Passei o tempo todo lutando pelos meus objetivos e dói ver que isso não vale de nada. As amizades que conquistei, eu não consigo compreender a profundidade delas. E o amor? Igualmente. Eu não consigo ver o que sustenta ele. Eu não consigo entender porque conquistei a antipatia das pessoas quando elas me olham como se a minha existência fosse algo de errado e não entendem os meus motivos. Eu só consigo pensar: ‘’Você não conhece a minha vida. Você não conhece a minha história. Como pode me olhar assim? Para de me olhar! Não quero seu desdém. Ele dói. Ele me faz mal.’’ – E acho que depois dessas experiências, eu passei a repudiar os olhares e fugir deles. Eu passei a gostar menos de mim e mais de você.

Não tenho orgulho do que sou. Aliás, o que sou? Que importância tenho? Penso que, talvez, se eu sumir, ninguém vai dar por minha falta. Minhas dificuldades passaram a tomar dimensões fora do meu controle, quando sinto que as pessoas não gostam de mim por causa delas, e o erro continua sendo meu. Há sempre aquelas outras pessoas que querem ajudar, mas não sabem de fato o que você está sentindo, não entendem, e depois, se afastam de você. Eu só queria alguém no mundo pra me entender. Mas quem me entende, eu não busco com frequência, eu descartei. Busquei a minha cura numa aventura e machuquei quem me entedia. Infelizmente, era você. Só você. Sempre foi você, o tempo todo.

Cansei de alegrias passageiras, de méritos sem valor, de sorrisos não-sinceros. De dores profundas e olhares de repudio. Cansei de me arrepender do que não fiz, e de lembrar de tudo do que fiz quando não deveria e sentir dor por isso. Então, hoje no horário de almoço, saí do trabalho, com a mochila nas costas e corri em direção a um caminho desconhecido, não sabia aonde chegar, mas cheguei. Parei numa pedra, sentei, escrevi e ousei a imaginar. Parei para pensar em nós dois.

Já é tarde e o sol se põe. Fecho os olhos e lembro do nosso último abraço. Agora estou na beira de um precipício e vejo seu olhar bem lá em baixo no meio das águas correntes. É alto aqui de cima, mas eu consigo ver nitidamente o brilho seu olhar, eu sei que consigo. Aquele seu olhar cativante que me olhou no primeiro dia da faculdade. Aquele olhar que me fez sorrir quando eu me sentia deslocada. Aquele olhar que se fechou numa noite de inverno ao meu lado em nossas férias passadas em Nova York. Aquele olhar que me fez juras e promessas, que me fez sorrir todos os dias em que estávamos juntos. Aquele mesmo olhar com ternura que me olhou, em lágrimas, quando eu o traí no verão de 1985. Alguma coisa me diz pra ir lá buscar. Pular, sem pensar na dor. Não quero saber o que pode acontecer, pensar se não vou voltar. Foi nessas armações da vida em que eu tive medo de dizer ‘’não’’, que perdi você. E não me importa o fim que isso vai dar, se você estiver lá, me esperando.

Já é noite. E agora, só consigo escrever isso por causa da luz do luar. As nuvens se movem, e aos poucos estão querendo cobrir a lua. Acho que elas querem ofuscá-la para que eu não possa contemplar. Não, não pode ser! Acho que terei que parar de te escrever. Talvez isso seja o fim de tudo. O fim da carta, o fim da frase e da palavra. O fim do fim. O fim de mim. 

Sophia

Essa carta foi achada em frente a um precipício dentro de uma garrafa, no estado da Califórnia, enquanto a prefeitura fazia uma fiscalização pela área florestal. Já tinha se passado 3 dias após o dia em que ela foi escrita. Junto dela, estava o endereço e número de Paul. A carta foi entregue a ele, assim como as lembranças do passado. Sophia nunca mais apareceu na vida dele, nem em sua própria residência. Desapareceu da vista dos outros. O que será que teria acontecido depois dela ter escrito aquela carta. Será que ela se suicidou? Será que ela fugiu para outro país? Será que foi assassinada? Após 23 anos, a polícia já havia arquivado o caso. A única coisa que se sabe é que a alma de Sophia estava perturbada. Não há vestígios e nem provas, apenas uma carta. E até hoje, há indagações sobre qual teria sido o fim daquela jovem moça.



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3 Comente!

  1. MEU DEUS QUE TEXTO INCRÍVEL! Simplesmente apaixonada por causa paragrafo dele, sem brincadeira. Tão carregado de sentimentos, tão bonito que eu quase pude sentir o vento do alto do precipício e pude imaginar perfeitamente os olhos do Paul. Lindo! Estou impressionada.

    Beijos,
    Monique <3

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  2. Realmente o texto é muito forte e triste.
    Dá para interpretar intenções de suicídio que o torna mais triste ainda.
    Mas, a moça sumiu. Vai ver ele se matou para ele e foi viver a vida em outro lugar.

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