A garota que mentia

06:09

O conto de fadas sem o ‘’era uma vez’’. A princesa de sal sem o castelo e o sapato de cristal. A sua limusine de nuvem precipitava com o tempo. Seu vestido de veludo dissipava com o vento. As festas, bailes e viagens não passavam de conversas no fim de tarde ou de noite adentro. Ela era feita de livros, músicas, bebidas, sonhos e vontade. Mas nunca falava a verdade. Quase ninguém notava, quase ninguém sabia. E foi assim que eu conheci pela primeira vez a garota que mentia . 

Mentir é normal, fazemos isso a toda hora, por motivos baixos e torpes. Mas a garota que mentia, fazia isso com maestria. Sua existência me indagava. Muitos a achavam aloprada, doida, desvairada. Talvez um pouco doente, ingênua e até maligna. Pobre coitada! Ninguém a entendia. Bonita por natureza, inteligente, boa fala e aparentemente dócil. Seu sorriso angelical enganava muitas e muitos a sua volta. Seus cabelos eram negros e lisos, sua franja era mantida sempre na altura dos olhos. Sua alma, sempre confusa, aprisionava a verdade nela escondida. 

A garota estava sempre em lugares que nunca pisou, em viagens que nunca decolou, dominava certas línguas que nunca estudou, possuía namorados que nunca beijou, tinha amigos com quem nunca falou , fazia encomendas que nunca chegavam. Queria causar inveja, sem ser invejada. Que tola, sempre caia em contradição! Seus príncipes e romances eram irreais e quase ficcionais assim como aquelas férias trágicas no Caribe, pra-nunca-mais. Sua imaginação era mais fértil do que a dos demais. Ousadia ou falta de paz? 

A garota que mentia era uma gênia. Já que o mundo não podia ser do jeito que ela queria, ela inventava. Usava e abusava das pessoas para compor sua rotina-sonhada. Havia quem acreditava. A garota que mentia, cada vez mais ficava melhor no que fazia. Construía, ela mesma, suas falsas teorias. Eu fingia acreditar e sorria, tadinha, não merecia ser julgada. Era tão mal compreendida. Deixei o espaço para a artista. Afinal, ela só queria ser amada. 

Essa menina era, de fato, sofrida. Seu mundo triste era desconhecido pelos demais. Eu via em seus olhos vagos, quase sempre maquiados e em suas mãos pálidas, que sempre estavam entre os fios de cabelo, os motivos que a mantinham presa com cadeados. Sua alma chorava, sua vida era uma verdadeira ilusão, daquelas que vemos nos livros e caímos em exaustão. 

Ninguém a acolhia, nem se quer quem mais a amava. Não tinha colo para ficar deitada. Fora abandonada. E tentando fugir das dores desse mundo de solidão, ela quis construir o seu, numa tentativa de atrair o que perdeu. Não queria ser sincera, ela não sabia, desaprendeu. Prefira usar uma máscara fria, até o fim dos seus dias. Sua falsa retórica não tinha medidas. Ela não desistia. Acreditava no seu mundo particular, se alimentava de suas próprias mentiras até se engasgar. 

Seu vício em inventar histórias me indagava: onde será que quer chegar essa menina? O seu passado, presente e o futuro eram decididos através da suas palavras nunca realistas. Sabe, as vezes, em momentos irracionais, até entendo sua iniciativa. É que a vida nem sempre foi justa. Os sonhos, quando nos dão as costas, ás vezes nos devassam, destroem, massacram, corroem e machucam. Alguns desistem do que almejam, outros nunca param de lutar. Todos reagem de uma forma, não há como escapar. A garota que mentia, preferia imaginar. 

Quem era a garota que mentia? 
A verdade é que nem ela mesma sabia.

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9 Comente!

  1. Por mais sofrida que seja a realidade de uma pessoa, ninguém consegue viver uma mentira assim, por tanto tempo. Tem gente que acredita nas próprias mentiras e isso é muito sério, pode ser até um caso clínico.

    Alguns de nós temos uma imaginação demasiadamente fértil, principalmente os escritores. E será que somos mentirosos? A resposta depende de como separamos nossos contos, crônicas, escritos em geral da nossa vida real... já pensou se sairmos por aí fazendo de conta de vivemos tudo que nossa imaginação cria e afirmando tudo como verdade??? Ai Jesus!!!

    Mas seu texto ficou muito legal, Sabrina. Leve e ao mesmo tempo analítico, parabéns!

    Bjinhus e fica com Deus.

    http://palavrasdevalquiria.blogspot.com.br/

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  2. Oi, Sabrina! É mesmo interessante como, conforme o tempo vai passando, vamos melhorando nossas habilidades da escrita. Seu texto está maravilhoso, cada parágrafo terminando com rima, ficou muito bom!
    A mentira é perigosa porque quem a toma como hábito (por medo ou solidão) acaba por acreditar nas histórias que tece e vai se afastando cada vez mais de viver realmente. ]
    Eu já fui mentirosa (não tanto) na adolescência e paguei preços altos por isso...a verdade em geral é o melhor caminho, traz paz.
    Um abraço!

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  3. Linda imagem.....lindo texto.....linda mentira. kkk

    abs

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  4. Gostei muito do texto. Muito agradável de ler.

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  5. A garota que mentia não é alguém e sim toda uma população mundial. Você escreveu magnificamente algo que talvez encontrou dentro de si ou de uma só pessoa, mas está generalizado em toda a população brasileira e me arrisco mais. Em toda população mundial.
    Muito obrigado por dar-nos a oportunidade de deleitarmos nós com tal beleza literária.
    - Eu acredito em você, acredito em seus sonhos e sempre estaria aqui para ajuda-la a alcança-los...!

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  6. Oi Sabrina, eu amo seus textos!!! Estou sempre aqui, mesmo que não me manifestando por meio dos comentários.. rs
    Tenho uma novidade, seu blog foi escolhido e ganhou um selinho. http://cantinhopeculiar.blogspot.com.br/2013/04/selo-versatille-blogger-award.html
    Beijos

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  7. Adorei Sah, conheço muita garota assim, que mentem, que criam um mundo que não existe, uma pena, pois nunca dura pra sempre e elas perdem a beleza da vida de verdade.

    http://iasmincruz.blogspot.com.br/

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  8. Sabrina, meu pensamento é mais realista, vai de encontro direto com o seu seguidor Lipe Dick.
    Parafraseando o Dr. House: "É uma verdade básica da condição humana que todo mundo mente. A única variável é sobre o quê".
    Não adianta ficarmos pregando ao mundo todo que não mentimos, que detestamos mentira e falsidade (quem afirma isto, sempre me deixa a impressão de ser o mais compulsivo e "falso" por fazê-lo com tanta "veracidade" e agressividade) porque em muitas ocasiões de nossas vidas, a mentira se torna um mal necessário e há dados científicos sobre o quanto proferimos mentiras por dia.
    No caso da sua personagem, eu penso que as mentiras dela não eram para prejudicar ou puxar o tapete de ninguém, (estas sim, devemos ter cautela para não cometê-las), era apenas um modo que ela tinha de lidar com uma vida que não parecia muito justa. Cada pessoa tem sua válvula de escape e existe até um nome para esta doença dos mentirosos compulsivos, não me recordo agora...
    Fica em aberto a questão do desfecho: Será que ela não sabia a verdade de quem era ela? Ou apenas não poderia contar por medo de não ser aceita em uma sociedade onde exige padrões cada vez mais inatingíveis?
    Quem sabe, as suas mentiras não eram tão mentirosas assim, apenas um meio de lidar com uma vida que, quem estava de fora, não poderia jamais compreender.
    Adorei o texto, sua escrita está cada vez melhor, sei que é repetitivo dizer isto, mas quando a leio e comparo há um tempo atrás, vejo o quanto amadureceu.
    Abraço parceira literária!

    ESCRITOS LISÉRGICOS...

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'' Que eu nunca perca essa vontade de escrever. Jamais. O mundo parece uma prisão, às vezes. Escrever é como abrir janelas.''


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