Brígida e a menina do futuro

23:13



Uma vez eu vi uma menina chorando. Ela parecia triste. Correu do lugar que estava com a desculpa de que precisava ir ao banheiro. Quando chegou na porta, o lápis de olhos e o rímel já estavam borrados. Era o banheiro de uma escola. A escola dela. Passou alguns minutos e ela estava trancada em um dos sanitários. Passou meia hora. A menina saiu. Fingiu que estava tudo bem. Depois, ela chegou em casa. Chorou mais um pouquinho. Primeiro foi no quarto. Depois no chuveiro e antes de dormir. Era assim quase todos os dias.

Bom, essa menina não é como a maioria. Ela veste um tamanho grande e tem poucos amigos. Ontem ela estava chorando porque alguém falou da quantidade de comida que ela colocou no prato. ‘’Já era o esperado, olha o tamanho dela’’.  Ela lembrou do olhar de desprezo. Das risadas. Sabe quando alguém fala mal de você, não diretamente, mas você escuta? Então, foi assim com essa menina. Ela sentiu vontade de sumir.  Mas mesmo assim, fingiu que estava tudo bem pra não ser feita de palhaça. Se é que ela já não estava sendo. Ela odiava comer em grupo. 

Com o tempo ela ficou insegura, tímida. Não tinha vontade de tentar coisas novas. Levantar da cama era um sacrifício  Odiava o espelho do quarto. Tinha medo de olhares de desprezo e por isso nunca mais quis saber de olhares. Poucos foram aqueles que ficaram frente a frente com Brígida. O tempo passou. Ela foi buscar força onde não tinha. Foi difícil. Mas quem disse que a vitória estava garantida? A batalha por si só justifica  o esforço mesmo que o final feliz não seja a recompensa. 

Mas espera...eu nem me apresentei. Somos muito parecidas. Porém, diferente dela, eu não choro mais. As pessoas já me aceitam. Ninguém olha mais pro meu prato como se fosse uma justificativa pro tamanho das minhas roupas. Consegui grandes coisas na vida, tenho milhares de amigos e outras milhares de pessoas que me invejam. Escrevi livros, estou em revistas, entrevistas e até em programas de TV.  Troquei o banheiro da  escola pelas palestras sobre assuntos de relevância nacional e cultural. Trabalhei muito para chegar onde eu estou. O espelho, agora, é meu grande amigo. Eu sou a Brígida do futuro. A menina do futuro.

Agora ela está lá, novamente. Presa no quarto. Ouvindo músicas, tirando os pôsteres velhos de bandas que ela não escuta mais da parede do quarto. Ela vai mudar a decoração do quarto hoje mesmo. Ontem foi humilhada pelo grande amor de sua vida. O coração de Brígida está partido. Mal sabe ela que no futuro, isso tudo apenas vai ser uma história triste. Uma história bem triste de alguém que vestiu sorrisos falsos na esperança de que um dia alguém fosse perceber e mudar o contexto. Mas ninguém percebeu. Ninguém mudou aquele coração triste. Então ela mesma teve que resolver o problema. E escrever uma nova história. 

Essa não é uma história sobre bullying. Isso é uma história que acontece todos os dias diante dos nossos olhos. Brígida conquistou grandes coisas mas antes, tinha a alma mais triste do mundo. Quem dá importância? A sociedade tem sido tão egocêntrica. Em pequenos detalhes se constroem corações tristes. Em pequenas migalhas surgem grandes histórias. A vida é um grande show. O mundo é a platéia. 

Brígida apenas saiu dos bastidores. 



“Sua história pode não ter tido um começo muito feliz, mas não é isso que define quem você é. É o restante da sua história, quem você escolhe ser.” Velha Cabra [Kung Fu Panda 2]


Gente, eu cismei com o nome Brígida faz tempo.  A origem do nome Brígida vem do francês e significa ''grande deusa'' ou '' aquela que é grande,elevada''. O texto-ficção saiu assim, espontâneo, antes mesmo de saber o significado do nome. Engraçado né? Eu sou assim. Escrevo uma frase que puxa um paragrafo e dali sai um texto que eu nunca pude imaginar que iria sair. Fiquei uma semana remoendo frases e fragmentos sem sentido (quem sabe eles façam algum sentido no futuro) em meu íntimo e hoje conheci inesperadamente Brígida. 


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3 Comente!

  1. Sofremos demais pelo pouco que nos falta
    e alegramo-nos pouco pelo muito que temos.
    Shakespeare

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  2. Legal, a deslocalização temporal. Foi surpreendente quando soube que a narradora era a própria Brigida do futuro. Muito criativo!

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