Desabafos da sua ex melhor amiga

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Era um dia chuvoso de março. Naquele estilo ‘’águas de março’’ mesmo. Sabe aqueles dias que não temos disposição de largar as cobertas? Era assim naquela quinta-feira úmida pós-chuva-ao-meio-dia (eu só me lembro do dia da semana, não da data). Eu não esperava nada mais daquele dia, porém, inventei de sair de casa. Assim, do nada. Eu só queria comprar algo pra maquinar na cozinha. Foi isso.

Olha, vou te contar uma coisa. Sabe, toda vez que saio do portão da minha casa, faço um ritual: olho pro céu o céu, ás vezes retoco meu batom e me olho num espelhinho pequeno na carteira. Só pra me sentir segura caso encontrar alguém por aí. Sempre funciona. Naquele dia então... eu nem liguei pra coerências e combinações. Usei shorts e casaco. Um all star pra não molhar os pés e pra reforçar meu look desarrumado. Arrumei o cabelo de um jeito diferente de todas às outras vezes. Você sabe o quanto é difícil eu largar a chapinha. Sei que foi desnecessário tudo isso que eu disse agora, mas eu gostaria que você soubesse que eu não sabia do que iria acontecer depois. Se não, nem tinha saído de casa naquela hora. Naquela bendita hora. Você vai me entender.

Um pouco mais a frente . Sem esperar nada daquela esquina curva na qual eu iria passar. Foi ali mesmo que te vi. Exatamente da mesma forma que te vi pela primeira vez. O mesmo penteado e o mesmo tom de pele. A postura também, nada mudou. Nada. Engraçado que você também me viu. E sabe o que é mais irônico? Você fez questão de mudar de humor ao telefone. Você estava sorrindo. Falando com alguém especial, presumo. E quando me viu, instantaneamente ficou séria. Virou o rosto. Senti uma coisa estranha aqui dentro. Tipo um corte ou uma dor. O seu olhar de desprezo tomou lugar do olhar de surpresa ou alegria que eu costumava ver. Desviei das poças no caminho. Nada adiantou. Que decepção.  Afundei nas poças e mágoas do meu próprio coração.

Eu sinceramente não sei onde foi que erramos. Ou melhor, qual foi o momento que eu errei com a nossa amizade. Lembro do nosso primeiro contato. Da nossa identificação instantânea. Das nossas ligações demoradas. De nossas fotografias juntas. De quanto foi pra mim doloroso te ver ir pra fora do país. De mandar aquela carta enorme quase-sem-fim demonstrando o valor da nossa amizade. De todas as guloseimas que comíamos na sexta série. Das nossas conversas no MSN. Daquele dia que eu dormi na sua casa. De como éramos amigas e felizes.

Voltamos à rotina. E foi tudo como o Lulu Santos uma vez disse ‘’nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia’’. Se eu ver ele qualquer dia desses da minha vida, irei dizer um obrigado pelo aviso. Depois aconteceram coisas tristes. Sua vida deu um giro de 180 graus. As crises familiares para você viraram rotina. Sua alma quebrava aos poucos. Na escola, você era turista. Ninguém mais te reconhecia. Eu só assistia de longe por detrás do escudo que você colocou entre nós. A barreira do ciúme que me transformou de melhor amiga a uma vilã na história da sua vida. Sempre soube que você era possessiva. Não sei se foi cedo ou tarde. Calma, todo mundo é um pouco assim. Mas sua dose era exagerada demais para que pudéssemos manter viva a amizade. Ah, a amizade. Coitada. Morreu de overdose enciumada.

O tempo pra mim também mudou. Quis conhecer novos olhares. Novas amigas. Outras pessoas com que eu dividia tudo que eu dividi com você. Perdi o interesse, sabe. Sentia-me incapaz de mover uma palha. Por não poder não fazer nada pela sua vida porque você não me queria nela. De não poder te dar mais a minha palavra de amiga que eu sei que você precisava naquele momento que eu te vi no canto sozinha. Não tive coragem em vários momentos. Apenas uma vez. E você lembra como foi? Choramos juntas. Até nos abraçamos. Pela última vez.

Tudo que eu vivo intensamente fica marcado. Nossa amizade era meu tesouro, um dos maiores da minha adolescência. Agora, depois de adultas, me pergunto por que isso me dói tanto. Talvez seja porque agora você me veja como alguém desprezível e sem alma. Mas saiba que eu sinto uma dor. E dói mais do que antes. Eu odeio despedidas. Finais. Não suporto ver nada que era bom e verdadeiro acabar. Eu tento correr atrás das coisas que eu amo e colar as peças que se perdem no caminho. E mesmo que as coisas e circunstâncias mudem, meu sentimento pelas pessoas é eterno. Com você também foi assim. Acredite.

Posso te pedir uma última coisa? Se você me ver de novo pela rua qualquer dia desses, se esconde. Foge pra qualquer lugar. Não deixa eu te ver. Nossa amizade é minha maior frustração. Magoa o coração. Mata-me por dentro. Acrescenta-me uma série de indagações sem resposta. Além disso, eu odeio ser ex na vida das pessoas , apesar de isso ser inevitável. Eu gosto de marcar a vida delas sempre de alguma forma. Isso é uma característica minha. Por favor, entenda. Guarde seu desprezo ou pelo menos não me deixe vê-lo apontado para mim. Eu não sei como foi que isso tudo começou. Mas sei que isso já acabou faz tempo. Digo isso sobre a nossa amizade ou pelo o que algum dia já esteve unindo nossos corações. 

Sabe aquelas coisas que fogem de nós , nunca dão certo e por mais que nos machuquem, permanecemos em busca delas? Infelizmente, esse não é mais o nosso caso. 


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7 Comente!

  1. Eu li esse texto ccom um aperto no coração, doí tanto ver uma amizade chegar eu fim. Vivo isso, tive uma grande amiga na adolescência e que hoje só trocamos um olá, é triste. :/
    Mas o tempo passa, as pessoas mudam e a distância, diferenças aparecem.

    http://iasmincruz.blogspot.com.br/

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  2. Que texto lindo, mas que dá um apertinho no coração :( É péssimo quando de melhores amigas a gente se torna conhecidas e adeptas do "Oi" :(

    Super beijo, Garota sem Clichês

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  3. "Posso te pedir uma última coisa? Se você me ver de novo pela rua qualquer dia desses, se esconde. Foge pra qualquer lugar. Não deixa eu te ver. Nossa amizade é minha maior frustração. Magoa o coração. Mata-me por dentro. Acrescenta-me uma série de indagações sem resposta. [...] Guarde seu desprezo ou pelo menos não me deixe vê-lo apontado para mim."
    Apenas desceveu muito do que sinto. Obrigada.

    http://desejandofelicidades.blogspot.com

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  4. Uma coisa que aprendi de tanto apanhar da vida foi que nós, mesmo inconscientemente, selecionamos as pessoas que entram na nossa vida entre aquelas que ficarão e as que apenas estão de passagem, não considero egoísmo ou desapego com as pessoas, é que há vezes em que as pessoas simplesmente não combinam com aquilo que nosso ser se transformará e as vezes acontece de tais almas marcarem a nossa, acho que é um risco que correos.
    Abraços Sabrina.

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  5. Eu tava ouvindo a música sunset de the xx e lembrei desse texto. ><
    Só por causa da frase "eu sempre achei vergonhoso que temos que fazer esse jogo, eu pensava que você realmente me conhecia, agora parece que você ver através de mim"

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  6. Como a menina disse ali em cima, dá um aperto no coração, ainda mais por que essa história aconteceu bem diante dos meus olhos...

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