Eu não estava lá

20:23


A cidade grande, todos os dias, me surpreende a cada instante. Por isso eu estou me achando mais silenciosa do que o normal nos últimos tempos. Lendo o livro certo nos momentos certos, porque não dá tempo de ler ele todo só uma vez. É por causa do barulho. E o silêncio que me cerca no meio dessa imensidão de informações e correria. Costumo me abrir somente com aqueles que me deixam a vontade. Eu gosto de ser assim, apesar de me doer aqui dentro um pouquinho. Dói ser você mesmo, sabia? Afinal, é você o obrigado a aceitar todos os seus defeitos e suas frustrações e mesmo assim, se amar sem limites, ignorando seus próprios preconceitos e os olhares opressores da sociedade em geral. Tarefa um pouco árdua, depende pra quem. Pra mim, enfim.

Aprendi muita coisa durante os últimos dias, como por exemplo, aprendi que na vida da gente, a gente perde e ganha muitas coisas. Pessoas e oportunidades são os itens mais comuns nesse quesito. Mas vamos focar nas pessoas, é delas que eu gosto de retirar uma boa parte dos minhas dúvidas e certezas. Daquelas que se partiram para todo o sempre e levaram de mim a esperança da justiça por dias melhores. A descrença. Daquelas que estão acordadas todos os dias e que hoje, estão como os que estão na eternidade. Sumidas. 

Esse entra e sai me incomoda, literalmente. Longe de mim ser uma possessiva descontrolada ou qualquer outra coisa parecida. É que a partir do momento que nós entramos na vidas das pessoas, ganhamos uma parte da vida delas e quando deixamos de estar ali, perdemos também. Isso, na maioria das vezes, naturalmente. Por isso, com o tempo, passei a refletir sobre tudo que perdi e ganhei. E o que perdi me dói mais do que eu ganhei, porque na essência, tudo o que a gente perde sem querer um dia já foi nosso. 

E sabe o que é mais estranho? Alguém que eu conheci ontem já faz parte da minha história e vive nela. Porém, há pessoas em minha vida que um dia marcaram ela e agora, tudo aquilo não significa mais nada. NA-DA. Eu sei que já disse isso em milhares de textos e frases. Que isso é o maior clichê de todos os tempos. Mas agora é diferente porque eu percebi uma coisa. Eu não estava lá. Eu simplesmente não estava. Eu não morri. Eu não faltei com a palavra. É como perder de W.O*, acidentalmente. Se é que me entende. Eu somente não estava.

Não. Eu não estava. Eu não pensei em estar. E agora eu só acompanho de longe a vida dessas algumas pessoas. Todas elas. O novo momento, a nova fase e uma nova realização. Tudo novo, e eu, com meu velho antigo aqui, num lugar chamado lembranças cujas ficaram no passado. Eu sei que tinha tudo pra ser frutífero, mas não foi. Eu sei que seria diferente se eu estivesse lá. Mas eu não estava . Não estava quando deveria estar. Não estava por mera distração. Acontece, vai. E a gente não tem como prever. Eu queria estar. Juro.  Eu acho mesmo é que não soube como mostrar. Senão não estava doendo tanto. Não é mesmo? Sou 50% do que você me vê, pode ter certeza, não sou assim, não mesmo. Não me entenda mal. Foi mal.

E é simples a resposta para o que nem chegou a ser uma pergunta: aceitar. Mas mesmo assim, ainda faria novamente tudo que fiz. E o que não fiz, se tivesse oportunidade, mudaria. Porque não? Hoje eu só me arrependo das sementes que não plantei, das flores que não reguei e dos jardins que não visitei. Daquela palavra que eu não disse no final daquela conversa. Foi a última. Do sentimento que guardei naquela ligação. Depois só deu caixa postal, era o final. Dos amigos e parentes que não param de convidar. Não fui visitar. E quando eu dei conta de tudo que perdi, eu percebi. Eu não estava lá.


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W.O. = abreviatura de walk over. Esse termo é usado quando a vitória é dada a um dos competidores graças à desistência do outro. Desonra para quem perde — porque fugiu da disputa — e também para quem ganha — pois não houve empenho na conquista.

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1 Comente!

  1. Eu também me abro com poucas pessoas, Sa!
    Nada melhor do que os aprendizados da vida. E realmente, as perdas são doloridas, mas elas servem de aprendizado para que isso não se repita mais. Parabéns pelo texto, tá perfeito! Você escreve bem! beijos

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