Gimnospérmica

22:28


Não me faça lembrar daquilo: me causa arrepios. Do que falo? De uma outra alma. Uma alma que ao olhar no espelho só conseguia pensar em si, ou melhor, nela. Sem dó nem piedade, achava que tinha o direito de ganhar o mundo e de ter tudo só pra si, afinal, já havia perdido tanto durante toda a sua vida. Tanto. Perdeu coisas que só o seu coração sabe, tipo aquelas decepções que ninguém nunca jamais notou. Quem iria desvendar aqueles segredos que aquela alma chorava no escuro do seu quarto, lamentando-se de dor e ninguém via? Ninguém. Nunca ninguém viu. Sempre se achava uma coitada. Se ela ganhava, ora, era sempre pouco demais. Queria sempre além. Dividir? Jamais! Já sentia carência no que possuía. O seu coração sempre sentia falta de alguma coisa e aquela alma, só queria saber de si mesma e que danem-se os outros. Não aceitava as dificuldades, se abatia com o mínimo dos obstáculos e as vitórias eram poucas, pequenas. Aquela alma queria algo bem maior. O que? Nem ela mesma sabia. 

Essa alma era a minha alma. Essa pessoa era eu.

O começo da mudança foi um pouco difícil. Decidi desapegar aos poucos daquilo que me incomodava. Dar liberdade as coisas que eu amo, sabe? Deixar tudo livre, mas no fundo eu sabia que não seria tão fácil assim. Eu era daquele tipo de pessoa possessiva que odiava se assumir como tal. Por isso, fui deixando as coisas mais leves. Comecei pelos amigos. Aprendi que nem tudo iria ser só eu ou só meu. Doeu, é claro que doeu. Mas aos poucos aprendi a dar valor a cada amizade e ver que quem está do meu lado, mesmo e de verdade, não vai me deixar. E eles tem outros amigos e outras pessoas muitos especiais. E isso não é um problema pra mim, muito pelo contrário. Por isso tenho amigos maravilhosos até hoje, que estão ao meu lado sempre que podem, apoiando e aplaudindo de perto as minhas vitórias. E pretendo fazer muito mais.

Depois comecei a tentar reparar os erros que aquela alma doente havia cometido. Equívocos egoístas. Comecei aos poucos a mudar minha postura. Costumam dizer que a gente colhe o que planta, né? Eu havia sentido isso na pele. Não era bacana, era uma colheita ruim. Eu não queria aquilo. Daí comecei a plantar aquilo que eu queria colher, mas sobretudo, eu queria colher florido. Tentei salvar alguns jardins por onde passei. Alguns adiantaram e ainda se reparam, aos pouquinhos, com o tempo. Pra alguns, foi tarde demais a minha volta. Já não adiantavam esforços.

Então chegou a hora que foi preciso perder partes. E começar a andar sozinha. Tudo aconteceu na mesma hora. Eu me vi perdida no mundo, sem ter uma direção, incapaz de tudo e decepcionada. Tive uma grande decepção, a primeira mais séria de toda a minha história. Depois me decepcionei comigo mesma, pois vi que aquela minha alma blindada havia deixado muitos estragos. Então me vi naquela hora que tudo começa a dar errado e que o coração fica confuso e a gente acha que jamais irá se recuperar. Bobeira. Enfrentei meus maiores medos e descobri que posso mais do que pensava. Entreguei nas mãos de Deus. Deixei alguns sonhos de lado, adquiri novas perspectivas. Entrei na faculdade. Abri meus horizontes. Descobri que estava começando a seguir para um caminho que pode ser tudo que eu esperei durante toda a minha vida. O que me restava é tentar. Vamos ver.

Então eu conheci um monte de gente legal, e aprendi a ser alguém mais legal. Vi um monte de gente legal morrer. Me apaixonei por desconhecidos, morri de amores pelo cara do banco ao lado, entreguei meu coração fácil fácil. Decepcionei, errei mais um bocado e descobri que sou mais um nada nesse mundo, e olha, descobri ainda que tenho uma série de coisa à aprender. Tanto sofrimento, tanta história dolorosa por aí, tanta coisa mais suja precisando de uma limpeza geral e eu aqui, guardando resquícios daquela alma que um dia se achou o centro do mundo. Comecei a desapegar de mim. E isso não foi muito fácil. Comecei a me deixar um pouco de lado e a pensar mais no outro. Lutei contra os meus maiores egoísmos, meu ego e minha vaidade. E ainda luto, todos os dias.

Descobri que era Gimnospérmica, ou seja, uma árvore que não dá frutos. E isso não era legal. Eu estava deixando minha marca egoísta na parede da sala e um vazio no coração dos humanos. Quis mudar tudo. Tomei como base a pessoa que eu mais admiro. Hoje essa pessoa tem o corpo doente e a alma sofrida, mas mesmo assim, consegue reconhecer algumas coisas belas. Perdeu tudo que se podia perder nessa vida, sempre esteve em desvantagem. Nunca soube o que era realizar sonhos e poucas vezes provou o que era felicidade. Não é alguém de muita importância, não tem muito estudo e nem grana. Mas essa pessoa, hoje, me ensinou o sentido de estar aqui nesse mundo. Ela só sabe soube se doar. E eu aprendi que isso é a coisa mais valiosa do mundo. É tudo. Qual é a graça de ter todo o foco sobre si? De querer ser o centro de tudo? De só ganhar? Qual o sentido de viver se você não dá frutos? Nós somos meros mortais, somos todos iguais. Não importa a nossa importância atualmente para esse mundo. Todos iremos acabar do mesmo jeito. 

Então eu descobri que é isso que eu quero: quero ser frutífera mesmo que isso me cause as maiores dores do mundo. Mesmo que eu esteja em desvantagem. Quero ter na memória alheia registrado o meu sorriso, mudar a vida de alguém por algo bom que eu fiz e tanto faz se vou ou não receber méritos sobre isso. Eu descobri que posso ser mais do que pensei um dia e que não preciso fazer grandes coisas, pois o pouco e o alcançável já são o suficiente. Descobri que mesmo tendo esse monte de defeito, eu ainda posso ajudar muita gente, alegrar muitas vidas e trazer novas coisas à pessoas que acham que não tem mais nada, mesmo que a minha alma esteja sofrida e mesmo que hajam pessoa que sempre irão pensar o pior de mim. Eu descobri o que eu quero: quero ser além, mas não pra mim. Quero ser além pro mundo.  Não importa se eu não estudei nos melhores colégios da cidade, se minha família é simples e eu inocente demais pra certas coisas. Não importa se tudo que eu tenho é um monte de sonhos, a escrita e esse blog aqui. Eu descobri que quero ser uma árvore e que lembrem de mim com alegria. Foi então que eu percebi que eu queria ser mais do que uma Gimnosperma nesse mundo. Eu quero o contrário. E não importam raiz, caule, folhas e sementes. Eu descobri que quero dar frutos. 


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1 Comente!

  1. Bem emocionante seu texto. Passa uma lição ao leitor. Sinto-me como uma gimnosperma o tempo todo e embora queira melhorar, não sei o que fazer e não sei se posso.

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