Júlia não sabia dizer adeus

09:33







Durante a noite, deitada em seu quarto olhando fixamente para o teto, ela contava minunciosamente as horas , os minutos e os segundos. Ao fechar os olhos, sua mente inquieta não a deixava cair nos braços de Morfeu. Ainda que pudesse sonhar acordada, de nada adiantara. O auditório mental não parava de trabalhar. Dia após dia, cada vez mais, ela adquiria mais perguntas do que respostas. E sem querer, ia voltando aos mesmos sentimentos de que um dia eu se libertou. Tudo sempre ficava tão confuso. Era como se estivesse remando sozinha num barco furado, nadando contra a correnteza. Não sabia o que acontecera. Ou melhor. Ela sabia sim. 

A última noite de Júlia não tinha sido nada legal. Tinha por costume se decepcionar quando um dia não acaba bem. Ela tomava posse do tempo e se sentia responsável por cada coisa boa e ruim que acontecia naquelas horas. Talvez a sua sensibilidade tenha aumentado com a idade. E junto com ela, a força também foi crescendo. E todos os dias, ela juntava o que tinha nas costas pra lutar ainda pelo que o seu coração acreditava. O contraditório beirava o clichê. Júlia apenas queria ser encontrada.

As lágrimas já não saiam com tanta facilidade. O coração aprendeu a guardar cada mágoa que ela foi tendo com o tempo. Acreditar que tudo pode ser inesquecível, talvez era um dos motivos que a fizera acordar todo dia de manhã na esperança de dias melhores. Nas margens de si mesma, sua mente era fotográfica. O seu olhar captava internamente , sua linguagem era a linguagem dos olhos, gestos e palavras. Depois de um dia chuvoso, percebeu que o mundo costumava ser menos complicado. O fácil era sua repulsa. Então todo dia, Júlia insistia em lutar para que fosse bom. E ainda insiste.

Jogou tanta coisa fora que agora nem sabe mais o que faz falta ou do que ela realmente precisa.Deixou tanta coisa tomar conta de si que não sabe mais o que realmente quer. Entrou em guerras sem razão, e a cada dia que se passou, ficou mais fraca. O seu coração está cansado. A sua mente quer sossego. Julia era o amor, viva e lutava por ele. Júlia era uma eterna apaixonada. O difícil era um tanto afrodisíaco. Vivia de replays. Até a última gota. Até a última palavra.

Tinha dó de tudo e todos, menos do seu coração. Ele vinha se tornando seu maior inimigo. Os seus ouvidos, eram malditos: acreditavam ainda em quase todas as palavras. A maioria dessa palavras que Julia ouvia eram vazias. Julia não notava. O peso de suas verdades a cegavam. O coração ia se atrofiando aos pouquinhos. E cada vez que ele ia se partindo, ela ficava mais fragilizada. Costumava pensar que quando se ama alguém, dar-se parte daquilo de mais bonito que nós temos. E acreditava que quando perdemos essa parte, esse espaço fica vazio, pronto para receber aquilo de mais bonito que alguém tem para nós. Cada vez mais Júlia perdia partes. Vazia, mas mesmo assim, cheia de esperança de que tudo isso um dia ia melhorar. Coitada, só sabia se doar. Não pegava o que era belo de volta, porque só queria o inalcançável. Deixava voar. O seu maior inimigo era o tempo. E de tanto reparar corações, no final, quem sofria sempre era o seu. Ela era teimosa e o pior aconteceu: Julia não sabia dizer adeus. 


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3 Comente!

  1. Nossa. Gostei do texto. O final é bem doloroso, na minha opinião. Principalmente a parte que fala que ela somente sabia se doar. Triste!

    ACESSO PERMITIDO: Mar de Hipocrisia.
    http://acessopermitidoblog.blogspot.com.br/

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  2. Esse texto é uma verdade tem pessoas que é igual a Julia nos sentimentos excelente texto, Sabrina passando pra desejar uma ótima semana beijos.
    http://www.lucimarestreladamanha.blogspot.com.br

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  3. As vezes quando nos doamos demais e pensamos demais nos outros, acabamos esquecendo de nós mesmos, das nossas vontades, desejos e etc. Em contrapartida deixamos de lado uma verdade: Não se pode amar os outros, sem antes amar a nós mesmos.

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