Se me encontrar por aí

10:40
























Ela era jovem demais. Jovem demais pra decidir o que é melhor pra ela e pro mundo. Jovem demais pra não errar e cometer loucuras de vez em quando. Apenas uma alma jovem e confusa no meio da imensidão desse universo físico e dos milhares de universos que ela encontra todos os dias nos olhares de estranhos em cada esquina que cruza pelas ruas dessa vida. Ah a vida, grande fiasco. Engraçada, ambígua e cheia de acasos. O grande palco para despedidas. Temia. Andava devagar como se estivesse contente. É a vida. A vida da gente.

Certo dia, ela andou procurando alguém que que conhecera há algum tempo, mas esse alguém não estava mais em casa. Bateu na porta e procurou respostas. Não havia caixa postal. Tentou perguntar por esse alguém mas ninguém tinha visto mais. Tentou saber onde esse alguém tão conhecido por ela foi, mas esse alguém fugiu. A verdade é que esse alguém não existe mais. Está morto. O que era passado foi junto com todas as lembranças desse alguém que ela não queria mais ser.E não era. Esse alguém era ela. 

Aprendeu a lidar com a perda, sobretudo, com a perda de si mesma. Assumiu essa nova realidade e as mudanças que vinham com a idade. Aprendeu a esconder no silêncio das marcas do que um dia já fez morada. Acolheu um punhado de ideias e pessoas novas. Descobriu que a melhor parte de tê-las em sua vida naquele momento era que ela tinha a possibilidade de reinventar-se e ser o que quiser. As ideias eram uma nova chance de ver o horizonte de um novo ângulo. E as pessoas só conheceriam a sua versão final. Sem mágoas, sem rancores.

Então ela escolheu ser uma brisa leve, tão leve que conseguia flutuar. Pelas mãos deixava escorrer um punhado de sonhos de gaveta. Jogou fora algumas coisas que não poderiam ser vistas. Eram seus nobres sentimentos e lembranças. Perdeu pessoas que ainda estavam vivas. Não restava mais nada. Queimou fotografias, chorou de saudade, sentiu desejos incontroláveis e uma raiva imensa. Intensa. Ela era intensa, até demais. Talvez essa mania de navegar por mares turbulentos justificasse a sua falta de paz. Paz? O que era isso? Ela não sabia. Era o que ela mais queria. E é ainda o que ela mais quer.

Um dia ela dormiu por dois dias. 

Acordou sem saber o que queria. Foi como navegar pela escuridão e o vale das sombras da morte. Um tipo único de viagem que ela nunca mais faria. O que ela fazia? Ela escrevia. O que via, o mundo e a vida. Ela tinha paixões do tamanho do mundo. Seu coração era oceano e ela não era a capitã. A grande capitã daquele barco era a vida. Sempre ela. 

Quis escrever a experiência daquela noite mal vivida. Traçava com a caneta um futuro incerto, mas logo desistia. Da sua boca, nada se ouvia. E ficou ali, presa aos seus rascunhos, por outros longos dias. Só conseguiu descrever num verso, que dizia:

'' De tanto que me parti e reparti, fiquei quebrada.
 Então, se encontrar meus pedaços , 
não tenha medo de tentar juntar as peças. 
Meu coração precisa de junção.
É como uma bússola sem direção. 
Meu destino é tão incerto que mal posso escutar a razão. 
Eu não sei ao certo pra onde estou indo 
e nem aonde acho uma nova estrada. 
Mas se me encontrar por aí, 
por favor, 
me leve pra casa...''


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  1. Você sim, deveria escrever um livro. Simplesmente perfeito, a forma como descreveu a perda de nós mesmos. <3 Indescritível. Como sempre. <3

    ACESSO PERMITIDO: Vagas para afiliação.
    http://acessopermitidoblog.blogspot.com.br/

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  2. Ta,me diz quando eu ti contei da minha vida,me descreveu a alguns meses atras,ainda bem que me reencontrei.fulanadiz.blogspot.com

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