O silêncio que grita

10:42


Em 3 de dezembro de 2012, no bairro do Morumbi, na capital paulista , aconteceu um episódio lamentável. Uma estudante de Direito pela PUC-SP, Viviane Alves Guimarães, que tinha 21 anos, se jogou do prédio onde morava. Na época, surgiram diversos rumores sobre as causas que teriam motivado a jovem a tomar tal atitude. Tudo indicava que a jovem sofria frequentes assédios em seu ambiente de trabalho. Este cenário injusto só evidencia a fragilidade e submissão que ainda sofre a mulher na contemporaneidade. Até quando ainda vamos ficar a mercê dessas situações?


Historicamente, a mulher nunca foi valorizada, tanto no ambiente de trabalho, quanto no lar. Para o chefe, ela era a submissa e tinha que aceitar os assédios, tanto sexuais e morais. Para o marido, ela deveria estar em casa cuidado dos filhos e do lar. Quando a mulher saiu de casa para ajudar o marido nas despesas do lar, ela foi massacrada, duplamente. A sociedade julgava e o trabalho explorava. O tempo passou e as coisas mudaram. Mas será que, de fato, elas mudaram mesmo?

Vemos todos os dias na TV, mortes e violência que acontecem a cada segundo no mundo em que vivemos, por diversos motivos e por diversas fatalidades. Vemos na TV o que ela quer nos impor, mas a história desta jovem ficou apenas como mais uma tragédia das milhares que vemos na televisão todos os dias. Viviane era estagiária de um dos maiores escritórios de advocacia de São Paulo. Familiares diziam que ela era uma pessoa feliz e que amava o que fazia. Mas mesmo assim, ela se suicidou. As causas parecem ser evidentes, mas nenhuma atitude foi tomada até provar o que de fato, teria acontecido. Um estupro, um assédio, palavras ofensivas... Ela só queria respeito. Muitos devem achar exagerada a atitude dela, mas o peso do silêncio de quem sofre é mais complexo do que parece. Viviane se silenciou e depois toda gente permaneceu em silêncio. E as coisas ainda continuam como estão.

Qual seria a solução? Promover mais iniciativas de apoio à mulher no trabalho? Mais fiscalização e multas para quem pratica esses atos de abuso de poder e desrespeito à figura feminina? Tudo isso seria pouco demais. Em primeiro lugar, deve-se disseminar a ideia na sociedade que a mulher não é um objeto, não é um brinquedo e muito menos um sinônimo de sexualidade. Esse assunto deveria ter mais destaque nas escolas, afinal, a educação é a base da sociedade e o pilar de qualquer nação. A promoção de palestras em escolas e mais notícias de conscientização na atualidade seria outra forma de lutar contra essa impunidade. Talvez até uma telenovela cuja protagonista sofresse com assédios de seu chefe, já que as telenovelas são uma das armas da mídia para mudar os costumes da população. Colocando esse assunto em evidência em horário nobre seria uma solução mais eficaz para conscientizar a sociedade sobre o assédio que a mulher sofre no trabalho.

A mulher teve que gritar muito para chegar onde está hoje, mas o silêncio da minoria grita mais forte. O silêncio da impunidade. O silêncio da injustiça. O silêncio do medo. O mesmo silêncio que nos faz aceitar como coisa normal isso tudo. O mesmo silêncio que as autoridades têm diante dessas circunstâncias. O mesmo maldito silêncio, que matou uma jovem inocente, num dia qualquer quando não lhe restava mais nada do que a vergonha do fracasso de si mesma. O silêncio da vergonha de ter a sua moral abalada e sua condição desrespeitada. O silêncio que grita nos telejornais e notícias. A sociedade doente tem que levantar e estar disposta a mudanças, visando a educação e manutenção de valores em diversas áreas. Caso contrário, ainda veremos inúmeras Vivianes se jogando de prédios, e perdendo suas vidas, por não aguentarem mais o fardo da existência humana.

Texto escrito por mim , publicado recentemente no blog DEScomplicando, especialmente, para a Semana do Dia Internacional da Mulher. Preferi abordar um assunto mais delicado e sobre um problema, como foi proposto, do que fazer homenagens com poemas e palavras lindas e tudo mais, afinal, a melhor homenagem que se pode dar a uma mulher no dia de hoje, é o respeito e o reconhecimento no seu papel na sociedade, que mesmo depois te tantos anos, vem sendo arrancado delas! O que vocês acharam?


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2 Comente!

  1. Estupro é uma coisa muito complicada que precisa ser tratado com delicadeza. Dizer que a moça foi fraca, me parece errado, pois muitas de nós não sabem o que é passar por isso, e provavelmente se passe tentaria fazer a mesma coisa. Continuar vivendo após sofrer uma violência dessas só pra quem tem fé e se conhece bem. Acho que o que pode ser feito é mudar o jeito como criamos as meninas para serem dóceis. Com certeza é preciso q elas cresçam com valores morais adequados, mas tb acredito que tenham que ter noção de artes marciais. É preciso incentivar na menina uma postura um pouco mais agressiva, mas tb ensiná-la a usar isso nas horas certas.

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  2. Além desse silêncio doído, pesa também sobre a nossa sociedade uma acusação de hipocrisia explícita: ao lado de propagandas veiculadas na mídia sobre a valorização das mulheres, usa-se a imagem da sensualidade feminina para vender de tudo,de refrigerantes a veículos; em novelas e seriados, a mulher ganha projeção quando se enfeita com intenção de seduzir. (isso sem falar na baixaria durante o carnaval divulgado pela mídia)
    A sociedade ainda tem um longo caminho a percorrer antes de conseguir viver sem rotular e etiquetar as pessoas como "mulher", "homem", "homossexual", "negro", "índio" e tratar todos como simplesmente seres humanos, iguais em direitos e necessidades.

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