O último dia da vida de alguém

23:15



Durante a toda a minha vida nunca sofri uma perda. Já sofri sim, com a perda de pessoas aleatórias e de coisas importantes, já sofri com a morte e a perda dos meus animais de estimação, mas nunca sofri com a morte de amigos ou familiares. Nunca experimentei a perda permanente de pessoas que já semearam e partilharam grandes momentos comigo ou que possuem um grande espaço no meu coração. Até a última segunda-feira, era assim.

Os dias têm sido confusos e estranhos. As tempestades não param de chegar, e eu venho me questionando se isso tudo é consequência da vida adulta. É quando notei que vamos levar tapas da vida, nos decepcionar um monte de vezes e perder pessoas - e algumas delas, pra sempre. Se isso tudo fosse previsível, talvez eu não esperaria muito para crescer, e viveria a fase das ''despreocupações'' com toda garra. Mas é isso, os anos vão passando. Eles tem que passar. Conviver é complicado, mas viver é um desafio. E a cada dia têm sido mais difícil.

Na última segunda-feira eu tinha ido à casa de uma grande amiga com a minha irmã, passar um tempo e colocar o papo em dia. Eu estava precisando relembrar os velhos tempos, conversar com gente que me faz bem. A amizade é um dom de Deus, e você só percebe isso com a maturidade. Mas voltando ao assunto, no fim da tarde, eu recebi uma ligação: era do meu pai. Ele sempre me liga, então pra mim estava tudo bem, só que dessa vez, a ligação soava a algo estranho. Meu pai falava com uma voz tensa, e demorava para dizer o que queria, apenas repetia que eu precisava ir para casa com a minha irmã urgente. Eu ouvi o choro da minha mãe, e prevendo a notícia, meu coração acelerou. Ele então disse o que eu menos queria escutar: que a minha avó havia falecido. 

Caí em lágrimas na mesma hora. Ouvi o choro incessante da minha mãe no telefone, aos berros, assustada. Meu pai disse tentando meu acalmar ''não chora não, espera que eu vou te buscar pra você ficar aqui com a sua mãe'' e desligou. Minha amiga me deu um abraço reconfortante, recebi ''meus pêsames'' e só sabia chorar e ficar triste. O meu pai foi me buscar,e naquele momento, faziam-se ligações e todos estavam tensos e nervosos. Eu pensei na última cena em que passei com a minha avó, suas últimas palavras, e tudo aquilo que eu sentia por ela. A gente só sabe verdadeiramente a força da dor quando ela é sentida.

Ao chegar em casa, encontrei a minha mãe em pedaços. Deve ser horrível perder a própria mãe, não desejo essa dor a ninguém. Eu não sabia realmente como consola-la. Eu então fiquei calada pensei o quanto deveria ter cuidado e amado a minha avó, enquanto ela estava perto de mim. O quanto eu deveria ter lido alguma coisa para ela, porque não enxerga, ou perdido um pouco do meu tempo conversando com ela, enquanto estava deitada no quarto, porque não consegue se mover pra quase nada. Eu pensei em tudo que poderia ser feito e meus pensamentos eram regados à lágrimas, no silêncio de minha alma. Eu não estava acreditando que eu nunca mais iria ver ou escutar a voz da melhor pessoa do mundo, a pessoa mais incrível que eu já conheci.

Foi então que o telefone da minha casa tocou, e eu recebi outra notícia, só que desta vez, muito inusitada: ocorreu um enorme erro de comunicação entre os familiares e a equipe médica, ou seja, minha avó não havia falecido de fato, mas sim, sofrido um infarte, mas os médicos conseguiram a reanimar. Hoje ela está em coma induzido, respirando com a ajuda de aparelhos, mas ainda há o sopro de vida, ainda há um coração batendo ali, mesmo numa cama de hospital.

Então, o que pude tirar de lição de tudo isso? A gente nunca sabe qual será o último dia da vida de alguém, mas se a gente soubesse, seria tudo muito diferente. O dia da ''morte'' da minha vó veio pra mim como um filme, aconteceu - e depois num piscar de olhos - não aconteceu mais. Nos filmes são assim, a gente pode voltar atrás, em alguns casos, parar e dar replay. Mas a vida não é assim! Eu percebi o quanto vai ser difícil quando isso realmente acontecer. Eu percebi [de verdade] que viver é uma dádiva, e que cada segundo é ouro e que nunca devemos perder a oportunidade de demonstrar o nosso amor quando estamos ao lado de pessoas que muito amamos, pois essa pode ser a nossa última oportunidade. Alguém sabia que eu precisava sentir na pele tudo isso, pra dar valor: Deus, ele sabe de tudo. E eu vivi a experiência da dor, em cada segundo. Quanto a minha vó,bem, ela está entregue a Ele, ao Deus que sabe de todas as coisas - só nos resta, agora, esperar e acreditar.

Como já dizia Cícero: enquanto há vida, há esperança.

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1 Comente!

  1. Boa noite,
    Como esta?
    Eu entendo a sua dor porque já passei por isso.
    Sim,chore pela perda dela mas como você mesma citou,viva cada momento como se fosse o último a partir de agora...

    Beijos e se cuida
    Melhoras

    Rimas Do Preto

    ResponderExcluir

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