De volta à Central do Brasil

22:07



Antes do galo cantar, eu já estava de pé. E ao acordar, por incrível que pareça, não tive a companhia do fantasma do sono, que sempre me acompanha todos os dias até a hora do banho - quando ele resolve finalmente ''descansar''. O engraçado de dormir no domingo à tarde é acordar na segunda-feira disposta e de bom humor. Se eu soubesse disso antes, com certeza viraria a minha nova rotina vespertina dominical. Todavia, naquela manhã, olhei no espelho e não me importei muito com a aparência - a mochila, em contrapartida, estava lotada de papéis, anotações e sonhos. Olhei a hora e não hesitei em partir rapidamente pela porta. Segui correndo pelas rua, atravessando vielas e enfrentando outros fantasmas matutinos a fim de conseguir entrar no ônibus a tempo.

O sol já estava chegando e antes do seu nascer, eu já estava em movimento. O ônibus por incrível que pareça não estava tão gelado assim e a viagem parecia começar um pouco melhor do que tantas outras. Quis dar a trilha sonora perfeita para o dia, eu sabia que seria diferente e que provavelmente, viraria dali um texto. A música que tocava me agradava, mas eu já estava enjoada de músicas repetitivas. Todos os dias eram as mesmas músicas oriundas de uma playlist completamente desatualizada - que costumo chamar de ''minha playlist''. Então liguei o rádio, pra variar. O sono não havia me procurado no ônibus, naquele dia. Ainda bem.

A diferença daquela segunda-feira era notável: seria o dia que eu voltaria à Central do Brasil ,um lugar que por muitos momentos, me pareceu desafiador. Dessa vez, estava sem saltos, mas em contrapartida, o peso das novas responsabilidades engrandeciam a minha estatura mínima. Afinal, as responsabilidades nos tornam adultos, pensadores e atarefados - o que nos torna também por muitas vezes dignos de sermos chamados de ''gente grande''. Eu agora sou gente grande e um pouco menos sonhadora. Aliás, menos sensível para as desgraças cotidianas também.

O caminho era o mesmo de sempre e dessa vez eu estava sozinha. Ajuntei-me a multidão de coração espalhados por aquele lugar em meio aos caos e não me importei com o que estava ao meu redor. Eu tinha receio, mas não era medo. Segui aqueles vários corações agitados - acho que vai ser pra sempre assim. Resolvi minhas pendências. Quem diria que eu teria algum dia que resolver algo naquele lugar! Virei as costas e segui, pra onde eu deveria terminar.

Será que só eu não tinha me dado conta de quão era perigoso estar ali, no meio de estranhos, sozinha? Na verdade, eu havia me esquecido . Todo o caos já não me importava mais. O Rio de Janeiro nos contamina com a normose*, e uma menina do interior como eu, acostumada com as coisas mais simples, jamais pensara que um dia veria o mundo assim. Eu nunca entendi a frieza das pessoas ao lidar com a rotina do centro da cidade, e hoje em dia, essa frieza me pertence. Era eu. Era só mais um alguém cheio de responsabilidades, com o coração já acostumado a ver a escassez e miséria humana. Tão clichê quanto minha nova visão de mundo. 

Cada um ia em uma direção, como sempre. Trabalhadores, estudantes, cidadãos e...eu. Dessa vez não estava perdida e muito menos melancólica: eu já sabia onde deveria chegar. Sem perceber, eu me vi seguindo um ritmo desconhecido, e trilhando por uma direção que não era a minha. Eram mais de 1001 corações, com certeza. Tão robotizados quanto eu. Tão ocupados, aflitos e atarefados como sempre. Já não me destacava no meio da multidão. Até a minha feição se assemelhava com o semblante daqueles desconhecidos. Voltar naquele lugar, acostumada e tão superficial, pude refletir que a vida e as nossas escolhas não nos deixam escapar das garras do mundo, infelizmente. Isso acontece em um momento exato. É quando a gente decide enfrentar os nossos medos e um dia, domestica-los. Eu aprendi tudo isso e muito mais e sem notar, acabei por perder um pouco a minha sensibilidade.

Como dizia Antoine de Saint-Exupéry, o essencial é invisível aos olhos. O infinito e o comum, por mais que fujamos, sempre permanecem aos nossos olhos. Ontem era aquela menina medrosa olhava por mundo de uma maneira que ninguém jamais previu. Hoje, era corajosa, e apesar de adulta, a alma ainda era juvenil. Não tivera outra saída, rendeu-se aos costumes da árdua vida cotidiana que escolheu levar, mas ainda não desistiu. Agora é só mais um triste e agitado daqueles mais de 1001 espalhados corações pela Central do Brasil.


*NORMOSE: Normose é um conceito de filosofia para se referir a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais, em outras palavras "comportamentos normais de uma sociedade que causam sofrimento e morte". Dessa forma os indivíduos que estão em perfeito acordo com a normalidade e fazem aquilo que é socialmente esperados acabam sofrendo, ficando doentes ou morrendo por conta das normoses.
*Texto baseado na crônica 1001 corações na Central do Brasil 

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  1. Amei! Que texto perfeito e realista. Escreve muito bem ! Beijos ♥
    heysotam.blogspot.com

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